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Entre 2010 e 2012 as maiores capitais brasileiras como Rio, São Paulo e Brasília recorrentemente apareciam em capas de revistas que apontavam em suas manchetes que estas figuravam entre as cidades mais caras do mundo.

De fato, o custo de vida aumentou bastante na época (e continua aumentando) mas daí a estarem entre as cidades mais caras do mundo soava exagerado. Outra reportagem mostrava que os executivos brasileiros – de São Paulo, mais especificamente – eram os melhores remunerados do mundo. Londres, NYC, Tóquio… que nada.

Como se já não fosse o suficiente, o PIB brasileiro em 2011 passou o do Reino Unido. Éramos a 6ª maior potência econômica do mundo. Estávamos ricos! Podíamos estar comemorando que recebíamos salários altos e nosso país agora era rico, mas como gosto de dizer, o câmbio do vizinho é sempre mais verde – e é claro que todos lembram, não comemorávamos nada, reclamávamos, isso sim, dos preços que estavam altos demais.

Tudo o que se passava ali fazia parte de uma ilusão cambial. Com o real sobrevalorizado, não só nossos custos mas também nossas receitas eram maiores. Não tardaram brasileiros “ricos” fazendo compras em Miami e NYC… meu Deus, como é barato!

Por que o real se valorizou tanto?

O processo de valorização começou em 2003, logo depois de uma desvalorização excessiva em 2002. Como o Brasil passou a ser superavitário – exportar mais do que importar – muitos dólares entraram no país. E como diz a lei da oferta e da demanda, muito dólar ofertado faz seu preço cair e o real valorizar.

Esse boom de exportação se deveu em grande parte ao sucesso da economia chinesa que demandava commodities, pressionando seus preços. O Brasil é um grande exportador de commodities. Bingo!

Bom, foi assim que começou essa história toda, mas a cotação do dólar permaneceu por bastante tempo em queda. A taxa de juros reais entre as mais altas do mundo (constantemente a mais alta, inclusive) atraiu mto capital especulativo internacional… entre outras palavras, gringos que queriam investir seu dinheiro com boa remuneração… também encheu o Brasil de dólar.

Não que a gente não tivesse nenhum mérito nisso… muito pelo contrário. O respeito a um sistema de metas de inflação, superávits primários, etc. Uma condução prudente da economia brasileira tornou o país um lugar seguro e com alto rendimento. Quer algo melhor que isso? Dá para entender porque choveu tanto dólar no período…

Em 2007 começou então os rumores de que a economia brasileira ganharia o tal grau de investimento. Significava a chancela das agências de rating de que investir no país era seguro. Muitos fundos grandes poderiam passar a investir aqui. Dólares para tudo quanto é lado… e a bolsa brasileira batendo recordes.

Então, em 2008 veio a quebra do Lehman e a crise dos EUA agravou, rompendo o ciclo de prosperidade internacional. O dólar, como sempre, subiu com investidores procurando economias mais seguras que a do Brasil (apenas um novato em termos de “grau de investimento”). Mas também não durou muito.

Para combater a crise, o Fed inundou o mercado de dólares e zerou a taxa básica de juros. Resultado: mais dólares no mundo, principalmente no Brasil e o real voltou a sua trajetória de alta. Imagina o impacto disso com o sucesso da economia brasileira entre o 2º semestre de 2009 e o ano de 2010. O país da moda, sede das 2 maiores competições esportivas internacionais. [Os investidor pira sic]

Esta história não está em nenhum livro texto ainda – não que eu saiba. É uma história contada dia a dia, nos jornais, na televisão… quem acompanha o mercado e tem boa memória vai lembrar. Vai lembrar ainda que como nossos custos de produção em dólares ficaram mais caros, nossa indústria perdeu competitividade.

A presidente Dilma e o Mantega declararam guerra ao que chamavam de Tsunami cambial (a quantidade de moeda que EUA e Europa estava jorrando em suas economias, tornando suas moedas artificialmente mais baratas e logo, mais competitivas). Essa guerra só não foi até o fim porque o dólar mais alto, apesar de ajudar nossa indústria, afeta a inflação. E como há anos temos andado na faixa de cima da meta, tiveram que abortar a operação. Bandeira branca ao dólar!

Ao passo que tudo isso acontecia e as pessoas reclamavam dos altos custos daqui, eu me perguntava qual seria o câmbio justo. Então, há mais ou menos um ano, eu publiquei aqui o artigo O preço justo do dólar. Nele eu mostro o qual deveria ser a taxa de câmbio caso as cotações se ajustassem apenas pela perda de poder de compra de cada moeda. Em outras palavras, descontei a inflação de ambas as moedas desde julho de 1994, quando o real nasceu como paridade do dólar.

Ora, se o real perdeu mais valor porque nossa inflação foi maior que a dos EUA, o real deveria ter se desvalorizado mais. Foi o que aconteceu, mas não na mesma proporção. A taxa justa na época que publiquei o artigo era de R$2,76 – em novembro de 2013.

Uma coincidência (ou não) bem interessante é que o Índice Big Mac calculado na época mostrava que o real estava sobrevalorizado e que o dólar poderia subir para R$2,75. [caso tenha interesse conferir matéria do Índice Big Mac aqui]

Hoje, vim atualizar aqui esta cotação seguindo a mesma lógica.

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Por esta análise, o “dólar justo” estaria a R$2,90 em outubro de 2014, ou seja, 13% acima da cotação do último dia 7/11.

Há espaço ainda para um aumento na taxa de câmbio, eu acredito. A inflação no Brasil está num patamar muito alto e isso faz com que o real passe a valer cada vez menos. O ajuste cambial é consequência.

É claro que este câmbio justo é apenas uma abstração. É sempre bom lembrar. O que eu chamo de taxa justa é essa taxa que iguala coisas que o dinheiro pode comprar, em outras palavras, a taxa que igualaria o poder de compra das duas moedas. É um parâmetro.

Mas, sabemos que a realidade não é tão simples assim e que o câmbio é afetado por diversos fatores como balança comercial, risco, especulação, investimentos diretos… só para citar alguns poucos.

Mas uma outra conta mais rápida pode nos dar outro bom guidance. Como a taxa de juros é o “preço do dinheiro” e a nossa taxa está mais alta que a americana (bem mais alta), isso significa que devido a isto, o Real está mais valorizado, e com justificativa, pois ele “remunera melhor”. Essa é uma visão menos “custo” e mais “análise de retorno do investimento”.

Portanto, se eu partir da taxa de câmbio justa e descontar o spread (a diferença) dos juros reais, terei uma fotografia mais acurada do que a taxa deveria ser.

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O quadro acima mostra que descontando a taxa de “câmbio justa” pelo spread entre as taxas de juros reais (a diferença entre as taxas de juros dos títulos dos 2 países, descontada das suas inflações projetadas) eu teria uma taxa de câmbio justa descontada de R$2,71, e portanto, ainda acima da taxa atual.

É claro que esta é uma análise beeeem simplificada, onde parto de algumas premissas. Por exemplo, o cálculo do desconto se refere ao período de apenas um ano. Se eu estendesse o período provavelmente chegaria a uma taxa ainda menor. Mas se por um lado, desconsiderei um período mais longo de remuneração maior do real sobre o dólar, também desconsiderei o risco do Brasil, cada vez maior…

O mais importante é o exercício, a compreensão… e ir além daquele pensamento limitado de simplesmente repetir que o dólar tá alto sem nenhum argumento por trás. Tá alto por que? Porque subiu muito não vale!

É bom lembrar que estas análises tem cunho teórico e não devem ser encaradas como recomendações. Até porque, como vimos na historinha, o dólar mtas vezes parece ter vontade própria. E afinal de contas, quem disse que o dólar quer ser justo?

A todos um grande abraço!

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Errata: A primeira tabela mostra a paridade entre real e dólar em 1/1/94. Na verdade, a informação se refere a 1/7/94.

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