Man in a bar with a pint of beer smoking a cigarette

Era meados de 2012, eu havia trocado no início do ano minha vida profissional financeira em uma grande empresa por um desafio na área de óleo e gás numa empresa de porte menor. Parecia àquela altura um desafio promissor e a minha decisão se mostrava acertada até que as coisas começaram a mudar. A Agência Nacional de Petróleo resolveu ser mais exigente com o mercado e descadastrou minha empresa da maior parte das áreas onde podíamos atuar. Perdemos clientes. Como grande parte dos meus rendimentos era em forma de comissão, a coisa tendia a apertar. Eu continuava confiante de que o vento voltaria a soprar a nosso favor. Até então tudo estava dando muito certo… estávamos batendo recordes seguidos de faturamento, recebíamos elogios do mercado, eu estava dando palestras em conferências… até que de repente, tudo mudou.

Um dia no meio do expediente resolvi descer e… fumar um cigarro. Havia tempo que não fazia aquilo… tinha parado de fumar há quase um ano. Mas, era só um cigarrinho. Naquele dia.

No dia seguinte, foi só mais um cigarrinho. Era só naquele dia. Um cigarrinho virou 2, 3, 4 cigarrinhos… viraram todos os cigarrinhos que eu fumava antes de parar. Os problemas no trabalho viraram desculpas para o cigarro. Eles não paravam de aumentar… aí torci o pé numa pelada e tive que engessar, mais motivo para fumar, quem não iria concordar? Era passageiro… já tinha parado antes pq não conseguiria de novo quando quisesse? Minha namorada voltou a fumar junto comigo…

Os problemas com a ANP passaram, mas pensando bem, no trabalho sempre tem um problema pra resolver. Logo, um cigarro por problema… aí tinha o Flamengo, mais cigarros… até que admiti que tinha voltado a fumar (demorou).

E agora, como parar de novo? Quem já fumou sabe do que eu to falando. É tanto esforço para parar… viver sem o cigarrinho depois do almoço, junto com um cafezinho, na mesa de bar bebendo com os amigos, numa noite fria voltando do trabalho, naquela festa chata que vc não conhece ninguém, poder sair pra fumar….

Por que estou falando tudo isso? Porque hábitos financeiros ruins são como o vício em cigarro. Talvez não seja tão diretamente prejudiciais à saúde (ou talvez até sejam) mas o vício é próximo.

O estilo de vida que a gente leva se torna um hábito difícil de ser mudado. O bairro onde a gente mora, os restaurantes que a gente frequenta, as viagens que a gente faz nas férias, as roupas que a gente usa… são hábitos que se entranham no nosso dia a dia. E aumentar o patamar de vida é tão fácil quanto voltar a fumar. Reduzir o patamar é difícil como parar de fumar.

Um lapso de controle e você acaba escravo de seu padrão de vida. Acorda cedo todos os dias e volta tarde do trabalho para sustentar um padrão que nem mais te traz tanto prazer mas que você simplesmente não consegue largar. Sem perceber, se tornou hábito. Ganha todo o mês o dinheiro que no passado sonhava ganhar mas que agora parece não dar pra nada.

Culpa a inflação, sem perceber que agora almoça fora e sai para jantar todo fim de semana, que as cervejas que bebe agora são artesanais importadas, que as compras do mês incluem itens que até outros dia considerava de luxo…

Uma hora aperta e o dinheiro não dá. E como mudar os hábitos agora? Repito, será doloroso como parar de fumar… mas é possível. O problema é que a maior parte não admite ter responsabilidade sobre a situação: “é a situação do país, o que posso fazer?”. Sentar e reclamar é que não vai resolver. Mas fumar é um vício tratado de forma séria (hoje em dia). A armadilha da desordem financeira é que não é vício, são hábitos. Hábitos parecem mais inofensivos, então não se resolve, não muda. Se eu demorei a admitir que tinha voltado a fumar, imagina quem tem descontrole financeiro!

É o hábito. Muita gente não tem ideia do poder do hábito e como ele se cria de forma quase imperceptível. Quando se dá conta, tá lá. Para o bem ou para o mal, sejamos justos.

Eu respeito os meus hábitos e tento criar bons. Talvez tenha aprendido a ter mais disciplina nas vezes em que parei de fumar ou quando ainda bem jovem e morando sozinho meu dinheiro acabou.

As vezes penso: “são só 10 reais, não vão me fazer mais rico nem mais pobre”. Verdade, 10 reais hoje não mudariam a minha vida. Mas a quantidade de vezes que eu penso isso!! Se todas as vezes que pensasse isso, decidisse gastar, aí certamente mudaria minha vida. E começa com R$10… depois vira R$20, R$50… pô, cem reaizinhos só.

Um taxista uma vez vinha me contando no caminho para casa que estava quebrado, cheio de dívidas. Disse que quando começou a ganhar mais dinheiro resolveu levar a família para o cinema e depois sair para jantar. Como o programa era bom, começou a repetir toda semana. Depois que virou repetitivo, perdeu a graça inicial, mas tinha se tornado um hábito difícil de largar e que estava levando ele a falência.

Quem vê de fora pode não entender mas perpetuo a maior parte dos meus gastos. Pagar R$8 um dia num salgado eu posso, mas não posso fazer isso todos os dias. Então, antes de comprar o primeiro, me questiono se aquela é realmente uma situação atípica ou um novo hábito em potencial.

Faço o que me é possível fazer, vivo dentro dos meus limites. Não há nada errado em criar hábitos caros, eu mesmo tenho alguns deles, mas contanto que sejam sustentáveis. Viva de acordo com o que é possível bancar. As pessoas em geral não tem ideia de o quanto gastos se tornam hábitos difíceis de serem cortados depois. Eles se perpetuam.

Crie bons hábitos. Gastar é um hábito, mas economizar também é. O problema é o “é só dessa vez”. Geralmente arruína tudo.

Bom, parei de fumar há quase 3 anos, desde então nunca mais pus um cigarro na boca. Hoje, no entanto, tive que me segurar. Foi difícil mas é assim mesmo, uma vitória por dia. Hoje também quis gastar com o que não podia… tenho certeza de que quando olhar para trás nem o cigarro e nem o que queria comprar terão me feito falta. Minha saúde física e financeira agradecem.

A todos um grande abraço!

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