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Acho que nada pode ser mais “econômico” no sentido da palavra do que a lei da oferta de da demanda (ou da procura, tanto faz). É o básico do básico de economia e, embora 99% das pessoas comuns saibam do que se trata, o que as diferencia de um economista é que o segundo não apenas conhece mas vivencia isso em qualquer ocasião. A cabeça de um economista é preparada de modo a interpretar as mais variadas situações sob as regras desta lei.

O que diz a lei da oferta e da demanda

Em resumo, a lei diz que, numa economia livre e sem interferências externas, a oferta e a demanda se ajustam de modo a encontrar um equilíbrio como no gráfico abaixo.

Do gráfico acima, 2 conclusões óbvias podem ser tiradas. Em primeiro lugar, olhe a reta da oferta. Qual é a mensagem? Quanto maior o preço do bem, mais eu estou disposto a vender ele (ofertar).

Para quem não se acha bom em matemática, para de bobeira que é muito simples. A linha da oferta começa em um ponto onde o preço (eixo y) é próximo de zero e a quantidade (eixo x) também é próxima de zero. Isso é muito óbvio. Ora, se o preço for zero eu não tenho nenhum estímulo a produzir. Conforme o preço vai aumentando, mais estímulo eu tenho a produzir e vender (por “eu” entenda o mercado como um todo).

A linha da demanda é no sentido inverso. Isto também é óbvio para bens normais*. Quanto maior o preço, menor é a demanda pelo bem. Veja que na linha de demanda, conforme o preço vai diminuindo a quantidade vai aumentando.

Como são linhas com direções inversas elas se cruzam em algum ponto – chamado ponto de equilíbrio. Este é o ponto em que serão definidos preços e quantidades a serem ofertadas (e demandadas).

É importante lembrar que existem limitações para os 2 lados. Para o ofertante (vendedor) o preço de equilíbrio tem que ser maior que os custos de produção.

Para o demandante (comprador), o preço deve estar dentro de suas possibilidades de pagamento (o que em economia é chamado de restrição orçamentária).

A lógica por trás do conceito é: quanto maior a oferta de um bem, ou seja, quanto mais gente disposta a vender ele, maior é a concorrência e menor é o preço do bem.

Por outro lado, quanto maior for a demanda por aquele bem, ou seja, quanto mais gente estiver querendo comprá-lo, maior será o preço dele. E isso é o básico, pronto.

Em resumo

Muita oferta: reduz o preço.

Pouca oferta: aumenta o preço.

Muita demanda: aumenta o preço.

Pouca demanda: reduz o preço.

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Daí podemos extrair grande parte das conclusões econômicas do nosso dia a dia. Como por exemplo:

  1. O aumento do desemprego no Brasil tem levado à redução do salário médio dos trabalhadores. Por que? Com mais gente desempregada, aumenta a oferta de emprego (mais gente querendo trabalhar), numa época em que a demanda por emprego está baixa (menos empresas querendo contratar).
  2. A queda recente do preço internacional do barril de petróleo está ligada ao aumento da produção (oferta) dos países árabes que desejam boicotar a produção do petróleo de xisto americano. Pelo lado da demanda, o ritmo de crescimento chinês menor foi incapaz de absorver esse aumento de oferta.
  3. O aumento na cotação do dólar em relação ao real se deve à redução na entrada (oferta) de dólares no Brasil. A queda do preço das Commodities no mundo fez com que nossos produtos exportados valessem menos. Além disso, a situação fiscal do Governo – tornando o país mais arriscado para se investir – afastou investidores internacionais que retiraram dólares daqui.

Mas para todos os casos acima, existe um ajuste possível a um determinado ponto de equilíbrio. Os salários dos trabalhadores podem cair até um ponto em que passe a valer a pena para as empresas voltarem a contratar, ou até mesmo empresas estrangeiras investirem no Brasil já que a mão de obra é mais barata. Isso fará aumentar a demanda por emprego, aumentando os salários.

O barril de petróleo pode ficar tão barato de forma a tornar muito barato usar carro, por exemplo. Se todos comprarem carros porque a gasolina está tão barata, a demanda por petróleo vai aumentar, pressionando o preço do barril para cima.

O real pode se desvalorizar tanto em relação ao dólar, a um ponto em que os produtos brasileiros podem ficar muito mais baratos em relação ao resto do mundo. O Brasil se tornando um grande exportador internacional, entrará muito dólar aqui (muita oferta) fazendo o preço do dólar cair a uma nova taxa de equilíbrio.

Como isto funciona no nosso dia a dia?

Na hora de escolher uma profissão, levamos em conta alguns fatores como: a) aptidão (quem tem dificuldade em matemática dificilmente escolhe fazer engenharia e etc); b) amor pela profissão; c) capacidade financeira e intelectual para fazer o curso (nem todos são capazes de entrar numa faculdade pública de medicina ou pagar uma particular) e; d) a remuneração da profissão.

Se o fator (d) fosse o único fator, poderíamos imaginar um mundo em que todas as profissões recebem mais ou menos a mesma remuneração. Mas como nem todo mundo que gostaria é capaz de se tornar médico (c), os que conseguem acabam ganhando bem já que a quantidade de pessoas que atende aos requisitos é baixa.

Nem todo mundo está disposto a ser um executivo do mercado financeiro e viver uma vida estressante e entregue ao trabalho. Os que estão dispostos, o fazem por uma alta remuneração.

Como muitos aparentemente estão dispostos a dar aulas, seja por amor (b) ou por mais facilidade especialmente nos primeiros graus (a), o salário é mais baixo – pq a oferta é alta.

Por outro lado, se o salário dos professores fosse consideravelmente mais alto, grandes médicos poderiam enxergar benefícios em largar a profissão de médico para dar aulas de biologia concorrendo com os professores atuais. O executivo bem remunerado no mercado financeiro poderia achar interessante dar aulas de matemática para crianças da quinta série apenas no período da manhã e por aí vai.

O que quero dizer é que existe uma espécie de mão invisível que rege os salários que são pagos a cada um na sociedade. Nós podemos todos concordar com a importância dos professores numa sociedade mas se houvesse uma oferta menor de professores, os salários naturalmente teriam que aumentar.

E é possível imaginar que estes professores que hoje protestam por salários maiores, se tiverem sucesso em suas demandas, podem acordar no dia seguinte sem emprego já que passariam a concorrer com outros profissionais interessados nos altos salários da profissão. É claro que estou exagerando um pouco, mas apenas para ilustrar melhor o mecanismo.

O mesmo ocorre com empresários. Se uma empresa está num ramo muito lucrativo e risco relativamente baixo, isso atrairá novos empresários para o ramo, e a maior concorrência fará com que o lucro médio no setor caia. Logo, em todos os setores da economia o lucro é ajustado ao seu risco.

Assim como o executivo do mercado financeiro é remunerado pelo seu estresse e pouca qualidade de vida, o empresário é remunerado pelo seu risco. Como nem todos estariam dispostos a investir milhões para cavar um poço em alto mar atrás de petróleo, arriscando perder todo o investimento caso não encontre nada lá (como o que houve com o Eike), o lucro no setor de petróleo é maior (e faz sentido que seja) do que no ramo de padarias.

Mas se vender suco der mais dinheiro do que vender pão, um padeiro terá o incentivo em migrar para o ramo de sucos. Isso ocasionará 2 efeitos: 1) terá mais gente vendendo suco, fazendo o lucro do setor cair devido a maior concorrência, e 2) terá menos gente vendendo pão e, ao reduzir a concorrência, o lucro no setor vai aumentar – de forma que os lucros dos 2 setores atinjam um ponto de equilíbrio.

Restrições na prática

A lei da oferta e da demanda existe de fato e pode ser observada em qualquer cantinho da economia (e outras ciências também). Mas não funciona perfeitamente como na teoria. Existem fatores externos como a interferência do Estado, as diversas leis, o desconhecimento e as incertezas, as barreiras naturais à entrada, posições religiosas, éticas e morais etc que causam distorções. Apesar disso, a lei da oferta e da demanda está presente, se não de forma perfeita, quase.

Mas se tem um lugar onde a oferta e a demanda se sobressaem e se encaixam em tempo real, este lugar se chama bolsa de valores…

A todos um grande abraço!

Nota: * Nem todo bem tem a demanda reduzida quando seu preço aumenta. Existem os bens de Giffen (não são bens normais) cuja demanda aumenta a medida que o preço aumenta. Fica para um futuro artigo.

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