Inflação inercial

A minha diarista já me pressionou mais uma vez para reajustar o valor da diária dela” foi o comentário de uma colega de trabalho em algum destes dias. Natural. A justificativa usada, no entanto, não foi a melhora na prestação do serviço mas “a passagem de ônibus aumentou, o supermercado aumentou, a conta de luz etc“.

Tradicionalmente, existem 2 grande fatos geradores de inflação:

1) Inflação criada pela oferta: onde o preço aumenta devido a uma redução na oferta de um produto, tornando-o mais escasso, como por exemplo, em épocas de seca ou entre-safras ou ainda mudanças climáticas que impactam a produção agrícola. Outro fator de reajuste pela oferta é um aumento de custos que pode ser repassado aos consumidores, como por exemplo, aumento de impostos.

2) Inflação criada pela demanda: um aumento na demanda de bens gerado pelo aumento de crédito ou pelo aumento generalizado em salários nominais como o realizado no Plano Cruzado na década de 80. Além disso, esta pressão nos preços pode ser até mais específica, fruto de um aumento de demanda inesperado pela oferta, como por exemplo, o aumento no preço de alguns repelentes durante o verão dada a alta procura por grávidas receosas de contrair a zika.

Estes choques tendem a ser temporários no entanto, e duram até a oferta e a demanda se ajustarem novamente. Se o preço de um produto aumenta, isto é um incentivo para sua produção e um desincentivo ao seu consumo. Quando a produção aumenta e o consumo cai, seu preço tende a reduzir encontrando um novo ponto de equilíbrio.

No mundo real, no entanto, a história não respeita exatamente os livros textos clássicos de economia. Existe um componente inflacionário que faz o aumento de preços perdurar muito além do seu choque (que deveria ser) temporário. A este efeito chamamos inflação inercial. Grosso modo, o motivo das inflações presente e futura é a inflação passada, ou seja, os preços aumentam simplesmente porque aumentaram no passado e assim segue. Alta inflação de 2015 tem impacto relevante sobre a inflação de 2016. Por que? Bem, imagine que você more de aluguel e que, naturalmente, o valor mensal será reajustado pelo IGP-M dos últimos 12 meses. O reajuste está indexado à inflação dos 12 meses anteriores (inflação passada), mas impactará a inflação deste ano (inflação presente/futura). Mais exemplos:

  • O aumento no valor dos combustíveis impactou diretamente a inflação de 2015, mas como onera o custo do transporte público, as tarifas de ônibus serão reajustadas afetando a inflação de 2016.

  • Com o aumento das tarifas de ônibus os trabalhadores pressionarão seus empregadores por reajustes salarias que reponham seu poder de compra.

  • Este aumento de salários gera custo aos empresários que buscarão repassar este aumento aos preços de seus produtos e serviços impactando novamente a inflação

  • Com o aumento de produtos e serviços, trabalhadores pressionarão novamente os empresários por aumento de salários… e por aí vai.

Trata-se de um ciclo difícil de ser interrompido, inclusive por ser politicamente desgastante. Uma das maneiras de rompê-lo é desindexando os preços da economia, ou seja, desvinculando reajustes à inflação passada. Digo que é desgastante porque os trabalhadores sempre brigarão para que não incorram em perda de poder de compra. Os empresários farão o mesmo. No final, combater a inflação é uma luta de todos e ruim para todos, mas o ganho de uma economia estável compensa a luta.

No Brasil dos anos 70 ao início dos anos 90, a economia era altamente indexada. Os preços subiam porque custos subiam em prazos muito curtos de tempo. Foram economistas da PUC do Rio que descreveram em detalhe o comportamento da inflação inercial brasileira. Nomes como Chico Lopes, Persio Arida e André Lara Resende, que tiveram grande participação no Plano Real, entre outros.

Hoje, a economia brasileira tem um grau de indexação menor que há 30 anos, mas isto não significa de forma alguma que devemos relaxar. Em 2015, o Brasil atingiu os 2 dígitos na inflação anual (IPCA de 10,67%), o que psicologicamente já cria pressões sociais como o da diarista da minha colega de trabalho. Começa-se a formar um ciclo perigoso. É bem verdade que a recessão e o desemprego podem contrabalancear esta equação. Mas no pior dos casos, podemos voltar a viver períodos longos de estagflação – sem crescimento e com alta inflação.

Sobre a inflação, devemos todos vigiá-la. O problema não é só do governo. Muito pelo contrário, é de cada um de nós.

A todos, um grande abraço!

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