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Este artigo mostra um pouco do que o Brasil está passando no momento num contexto global.

Câmbio: por que uma moeda se valoriza ou desvaloriza? 

Num mercado de câmbio flutuante (câmbio livre, ou seja, não controlado pelo Governo), a cotação de uma moeda é dada pelo equilíbrio entre a oferta e a demanda por esta moeda. Além da entrada e saída de recursos motivados por mercado financeiro (juros, investimento em ações etc), e investimentos diretos (quando investidores estrangeiros abrem ou fecham uma operação no país), esta força de oferta e demanda é dada pela relação entre exportações e importações – e isto é o mais relevante neste ponto.

Se um país importa muito mais do que exporta, isto significa que saem mais dólares (considerando o dólar como a grande moeda internacional) do que entram.

Dada a lei da oferta e da demanda, como o volume de dólar se torna mais escasso, ele fica mais caro em relação à moeda nacional, que se desvaloriza. O inverso também é verdadeiro. Se o país exporta muito mais que importa,  entram muito mais dólares na economia do que saem – isto desvaloriza o dólar em relação à moeda local, que se fortalece.

A vantagem de ter uma moeda desvalorizada é que se ganha competitividade no mercado internacional já que seus custos de produção são menores. O ônus de ter uma moeda muito valorizada, por sua vez, é o de apresentar custos elevados, perdendo competitividade internacional e, muitas vezes, inviabilizando certos tipos de produção.

História

Na década de 1960, os países baixos descobriram grandes fontes de reserva de gás natural. Com os preços altos, a Holanda passou a exportar gás, trazendo muitos recursos para o país. Isto fez com que a moeda local, a época o Florim, se valorizasse demais.

Nos anos seguintes, a Holanda testemunhou uma queda em sua industrialização causada por este câmbio sobrevalorizado. Era muito mais barato importar produtos do que produzi-los no país. Sem conseguir competir com as importações, indústrias holandesas fecharam as portas ou migraram para outras regiões do mundo.

Houve um processo de desindustrialização no país por conta da excessiva valorização da moeda.

No Brasil

As primeiras décadas dos anos 2000 foram uma espécie de anos de ouro para as Commodities internacionais devido, principalmente, ao apetite chinês que não parava de crescer. Os países emergentes, mais intensivos em exploração de recursos naturais do que em produtos industrializados, testemunharam um enorme fluxo de entrada de dólares, fazendo com que suas moedas locais se valorizassem.

O Brasil foi um destaque neste sentido, já que além de um grande produtor de diversos recursos naturais – como minério, soja, milho, etanol etc – o país ainda passava por um momento de confiança institucional. Neste período, as maiores empresas brasileiras eram Petrobras e Vale – ligadas diretamente a Commodities. Empresas novas, sensações de mercado, como as empresas X, também estavam ligadas à exploração de recursos.

A valorização do real veio acompanhada da desindustrialização brasileira. O custo-brasil se elevou. Entre 2006 e 2011, os salários médios em dólares no Brasil subiram 96% (aprox. 14,4% ano ano) – o maior crescimento entre as grandes economias do mundo (em segundo lugar ficou a Austrália com uma média de 9% ao ano – economia com forte dependência de commodities também). Este aumento dos salários ficou muito acima do modesto aumento da produtividade média do trabalhador brasileiro no período, míseros 1,7% ao ano. Resultado: perdemos competitividade. Com produtos importados mais baratos que os produzidos por aqui, ficou difícil competir.

Abaixo, um gráfico de 2007 mostrando a representatividade das commodities nas exportações do Brasil e de outros países em situação similar.

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Ciclo de baixa das Commodities

O esfriamento da economia chinesa e a perspectiva de um crescimento mais moderado da economia global fez o preço das Commodities derreter nos últimos meses. Países como a Rússia e a Venezuela, que claramente apresentaram sinais da doença holandesa ligada a alta nos preços do petróleo e do gás natural, estão entre os que mais estão sofrendo. Mas não só. Em geral, países emergentes estão vendo suas moedas locais perderem valor rapidamente.

No Brasil, a situação é mais complicada devido à displicência no uso dos recursos em tempos de bonança. O ciclo de alta foi tratado como se fosse durar para sempre. Os ganhos foram distribuídos e vendidos ao povo como milagres políticos. A redução da desigualdade social no país não foi resultado do aumento da produtividade – fruto de melhor educação e investimentos em infraestrutura e tecnologia. Pelo contrário. Demos o peixe enquanto estava fácil pescar – quando deveríamos ter ensinado como funciona a pesca em alto mar.

O câmbio desvalorizado ajuda a exportação. No curto prazo, porém, o ganho não é tão evidente. Depois de anos com câmbio supervalorizado, não temos mais indústria, não sabemos mais exportar manufaturados. Isto leva um tempo. A volatilidade cambial também não ajuda, pois gera incerteza.

Além do mais, um câmbio tão depreciado também não é bom. Ele ajuda a competitividade nacional de forma artificial, mascarando problemas estruturais do país. A gente passa a vender mais apenas porque o real está muito depreciado e não por aumento efetivo da produtividade.

Esperemos apenas, que a lição tenha sido aprendida.

A todos um grande abraço!

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