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“Riquinho, come a comida toda. Pensa nas crianças que passam fome no mundo.” dizia a Cacá, uma espécie de segunda mãe que tive na infância. Eu, com 6 anos de idade só conseguia pensar que mundo cruel era este que obrigava um moleque com a barriga lotada a se entupir enquanto uma multidão sem ter o que comer passava fome. Era simples. “Cacá, por que você não dá essa comida para eles, então?”. Juro que não era desaforo, era só lógica.

Àquela época, claro, havia muita coisa que eu não entendia. Não entendia a lei da oferta e da demanda, e nem como ela se aplicava aos alimentos. Por sinal, os alimentos são dos produtos que mais se aproximam de uma bolsa de valores por exemplo: são totalmente regidos pela lei da oferta de da demanda. Como a demanda (o consumo de alimentos) em geral tende a ser mais estável, os choques costumam vir da oferta (a produção de alimentos).

É curioso que as vezes observamos que o preço do tomate aumenta 100%, e você escuta por aí gente reclamando dessa alta absurda. Imagino o que deve passar na cabeça do cara. Será que ele acha que todos os donos de mercados no Brasil se reúnem e decidem que da noite pro dia “a partir de agora, vamos todos lucrar mais em cima do tomate!”? Por que ele acha que o preço de um único item de repente aumenta tanto?

A verdade é que este tipo de alimento sofre variação de preço de acordo com a sua produção. Se imaginarmos, como disse, uma demanda mais ou menos estável, o principal fator que vai determinar o preço do alimento é a sua produção. E por que a produção varia tanto? Por diversos motivos: períodos de safra, entressafra, excesso de chuva inesperada ou seca inesperada, El Niño, uma praga qualquer… Enfim, estes são os motivos reais que fazem variar os preços de alimentos e não a decisão de um cartel formado por donos de supermercados.

Por outro lado, a demanda também tem um papel potencial importante. Se a demanda pelo bem cair, a tendência é seu preço cair junto.

Chegando ao ponto em que eu queria chegar. Outro dia li em uma rede social “Antigamente todo alimento era orgânico”. Fiquei encucado sobre qual era o ponto ali. Aparentemente, era em defesa dos alimentos orgânicos. Bem, sobre a afirmação só tenho a dizer que sim, está correta. De fato, antigamente todo alimento era orgânico. Mas nesta época em que todos comiam comida orgânica, a expectativa de vida no Brasil não chegava a 50 anos (hoje está em torno de 75 anos) e a fome no mundo era infinitamente superior à atual (principalmente no Brasil).

A fome mata mais que agrotóxicos

Bem, antes de mais nada, em minha defesa, queria dizer logo de cara que não tenho absolutamente nada contra comida orgânica. Inclusive gosto de me alimentar bem, acho importante e tudo. Também não estou aqui para discutir se comida orgânica faz ou não bem. Não é nem a minha área. Acho importantíssimo este tipo de informação. Mas meu lado é o econômico e vou me ater à ele.

Em 1798, em An Essay on the Principle of Population, obra em que expunha suas ideias e preocupações sobre o crescimento da população do planeta, Malthus alertava que a população crescia em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos crescia em progressão aritmética. No futuro, isso acarretaria inevitavelmente em uma drástica escassez de alimentos e, como consequência, o aumento da fome.

A boa notícia é que Malthus errou. Ao contrário, a fome no mundo vem diminuindo constantemente. O motivo principal é o aumento da produtividade da terra. Avanços tecnológicos – que incluem maquinário, conhecimento e uso de agrotóxicos – fizeram com a que a produção de alimentos no mundo aumentasse exponencialmente. Algo impensável no mundo de Malthus, em que a produção era basicamente voltada para a subsistência. E, quanto maior a produção (a oferta), menor é o preço, tornando os alimentos mais acessíveis às populações mais pobres.

Como sempre faço questão aqui de lembrar, é claro que os fazendeiros fazem uso desta tecnologia pensando apenas em seu próprio bem. E é exatamente aí que mora a beleza do capitalismo. Ao fazer o bem a si próprio, ele acaba por beneficiar toda a sociedade. Economia não é um jogo soma zero, em que para uns ganharem outros tem que perder. Muito pelo contrário, os ganhos são compartilhados.

Conscientizar é melhor que proibir

O fato de termos avançado em relação à questão da alimentação, tornando-a mais acessível a mais gente, não significa que não possamos melhorar ainda mais. Em primeiro lugar, ainda há um exercito de pessoas sem acesso à alimentação no mundo. Em segundo lugar, OK, aumentamos a produção de alimentos, vamos melhorar agora a qualidade deste alimento. Isto naturalmente inclui a necessidade de estudos sobre os impactos de agrotóxicos no nosso corpo.

Ao meu ver, a melhor maneira de tratarmos a situação é através da divulgação da informação. Vamos conscientizar a população sobre os riscos e os malefícios dos agrotóxicos, incentivar o consumo de produtos naturais. Esta é a boa causa.

Sinceramente, estou meio de saco cheio deste mundo de radicais que lutam para proibir tudo o que eles são contra. Não é bom para ela, não pode ser bom para ninguém. Se acha que não é bom para os outros e querem ajudá-los, faça uma campanha para conscientizar. Mas, proibir completamente o uso de agrotóxicos (acredite há quem defenda) é jogar de volta milhões de pessoas à fome.

Algo as vezes difícil para uma pessoa de classe média que pode pagar por orgânicos, entender. Como era difícil para Maria Antonieta, dos muros de Versailles, entender que com a escassez de pão em Paris, a solução possível não seria dar ao povo brioches.

Combate ao desperdício

Hoje, com 32 anos, eu entendo perfeitamente o que a Cacá queria dizer naquela época (ao menos acho que sim). Ao comprar um alimento e não me alimentar dele (jogá-lo fora), estou gerando uma demanda artificial que pressiona os preços dos alimentos para cima. Os alimentos, acreditem, são mais caros devido ao enorme desperdício de comida que ocorre a cada segundo em algum lugar.

Saber disso me torna maluco por não desperdiçar comida. Acho um tema tão importante que por isso até resolvi escrever sobre ele. Prefiro jogar dinheiro no lixo do que comida. Então, independente da sua posição sobre a questão de agrotóxicos, tenha na cabeça que ainda assim reduzir o desperdício é a melhor solução.

É bom saber que mais gente está nesta luta também. No inicio de 2016, foi inaugurado na Dinamarca o primeiro supermercado de comida vencida. A ideia é aproveitar alimentos que ainda estão próprios para o consumo, embora já fora da validade. Todos sabemos que as datas de validade dos alimentos são muitas vezes bem conservadoras e que eles podem ser consumidos após o prazo. Em relação a frutas, verduras e legumes, para os supermercados tradicionais, sai mais barato jogar uma caixa inteira fora do que gastar tempo selecionando quais frutas ainda estão boas em meio a várias ruins.

A inauguração deste supermercado contou inclusive com a presença da princesa da Dinamarca. Os produtos são mais baratos, mais acessíveis e evitam o desperdício. Se o consumidor já sabe que está comprando um produto vencido e está pagando o preço adequado por isto, que mal tem?

Nesta mesma linha, de evitar o desperdício de alimentos, em 2015, o governo francês sancionou uma lei que proíbe os grande supermercados de jogarem comida no lixo. Ao invés disso, devem doá-los.

Enfim, devemos focar nossos esforços em evitar desperdícios, mas conscientes de que na economia (e na vida) há sempre um trade off e evitar um mal pode gerar outro maior. Além disso, podemos evitar os exageros, que engordam, fazem mal a saúde e aumentam a demanda, além de causar obesidade. O tema é importante em todos os aspectos: para o bolso, para a saúde, para a economia e para a sociedade.

O mundo como um todo agradece.

A todos um grande abraço.

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