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Qual o valor que tem as coisas? Depende. Qual valor tem um aquecedor para um indivíduo? Para quem está neste momento no Rio de Janeiro, o aquecedor não tem utilidade nenhuma. Para meus amigos que estão em Edmond, no frio de -25 graus no Canadá, o aquecedor é mais do que necessário.

Em economia o valor de um bem ou serviço está ligado, principalmente, à i) escassez; e ii) utilidade. É a escassez do diamante que o faz valer mais do que a água. Mas não só. Ele só possui valor porque alguém encontra beleza nesta pedra rara. Caso contrário, ele não teria valor algum. Ao atravessar um deserto, onde a água é escassa, a água passa a valer muito mais do que o diamante.

 

Afinal, o que é Utilidade?

Utilidade é o conceito econômico relacionado à satisfação que o consumo de um bem ou serviço trás. É um dos conceitos econômicos mais importantes!

É muito difícil quantificar a satisfação de consumir um bem atribuindo valores, porém é possível ordenar as preferências do consumidor. Eu, por exemplo, prefiro um carro a um vídeo game. Isto significa que o carro tem uma utilidade maior para mim do que o vídeo game.

As pessoas possuem preferências diferentes e, individualmente, cada um de nós atribuímos inconscientemente  diferentes utilidades para cada bem. Produtos que geram grande satisfação para um consumidor podem não gerar para um outro indivíduo, mesmo que esse possua renda e recursos disponíveis similares ao primeiro, ele pode possuir gostos e necessidades diferentes.

A Utilidade total é crescente

Em geral, para qualquer produto que é capaz de nos gerar satisfação, “quanto mais, melhor”. Em geral, ter 2 carros  é melhor que ter apenas 1. Ter 5 TVs é melhor que ter 4… e por aí vai.

Apesar disso, ao comprar o segundo carro, a satisfação tende a ser menor do que a satisfação obtida ao comprar o primeiro (claro, considerando que os 2 carros são equivalentes).

Em economês dizemos que a utilidade marginal é decrescente. Utilidade marginal é o grau de satisfação (utilidade) que se tem ao consumir uma unidade adicional (marginal) de um determinado bem.

Por que a utilidade marginal é decrescente?

Imagina que você esteja com fome e compre uma pizza. O primeiro pedaço é sensacional, você está muito feliz em consumi-lo. O segundo é ainda muito bom, mas na quarta fatia você já começa a se saciar e naturalmente a ver menos valor.

Se você pudesse dar uma nota de 0 a 10 à sua satisfação ao comer esta pizza, talvez a primeira fatia valesse 8, a segunda 4, a terceira 2, a quarta 1… e, já saciado, a quinta seria bem próxima a zero.

O mesmo vale com o carro. O primeiro carro teria uma utilidade de 10, já o segundo, valeria 5, o terceiro valeria menos e por aí vai. Isto vale para a água quando se está com sede, com as roupas que compramos (embora em algumas mulheres isto não parece funcionar, né mãezinha?)… em praticamente tudo o que consumimos.

grafico-utilidade

O primeiro gráfico mostra a Utilidade Total (U) em função da quantidade (Q) consumida. Repare que quando a quantidade consumida cresce, o grau de satisfação do indivíduo também cresce. Só que cresce cada vez menos, num ritmo cada vez menor.

Isto porque como disse, a Utilidade Marginal (Umg) – a satisfação por consumir uma unidade adicional de um bem – é decrescente. É o que mostra o gráfico ao lado (Umg x Q).

A Utilidade Total é a soma de todas as Utilidade Marginais ao se consumir um bem. No exemplo da pizza, as utilidades marginais de cada fatia são: 1ª fatia: 8, da 2ª fatia é 4, da 3ª fatia é 2 e a da 4ª fatia é 1. Portanto, decrescente.

Já a Utilidade Total cresce, embora em uma taxa decrescente. Na primeira fatia a Utilidade Total é 8, na 2ª é 12 (8 da 1ª fatia + 4 da 2ª fatia)… até que na quarta fatia a Utilidade Total é 15. Ou seja, comer as 4 fatias é melhor que comer apenas uma… mesmo que a primeira seja a que traga a maior satisfação.

A curva de indiferença

A curva de indiferença é o nome chique que os economistas dão ao “tanto faz”. Imagine uma cesta de bens em que você seja indiferente a consumir (que tenha a mesma Utilidade Total para você).

Em outras palavras, é a curva que mostra a quantidade de produtos em que o consumidor não tem preferência já que cada uma provê um mesmo nível de satisfação.

Por exemplo, eu posso ser indiferente entre ter: 1) uma casa, um carro e três TVs em casa ou 2) uma casa, um carro, uma TV e uma mesa de sinuca (só que quem é casado tem que ficar esperto com a curva de indiferença da esposa também =P).

curva-de-indiferenca

O gráfico acima mostra a curva de indiferença de um indivíduos em relação a maçãs e morangos. Ele parece gostar bem mais de maçãs, já que para ele consumir 5 maçãs é indiferente a consumir 50 morangos.

Restrição Orçamentária

Cada um de nós possuímos infinitas curvas de indiferença. Qualquer combinação entre bens em que a gente possa ser indiferente é uma curva de indiferença. Posso montar uma curva de indiferença com números de iates e de helicópteros que me trazem a mesma satisfação. Só que… eu não teria dinheiro para comprar mesmo.

Todos nós temos uma restrição orçamentária, o máximo de dinheiro disponível para consumir. E certamente faremos bom uso deles.

restricao-orcamentaria

O gráfico acima mostra diversas curvas de indiferença em vermelho. Quanto mais à direita e ao alto, mais satisfação me proporcionarão as curvas de indiferença. É só ver que em C2 eu consumo mais da Cesta A e mais da Cesta B do que em C1. Como em geral eu prefiro consumir mais do que menos (Utilidade Total), é claro que C2 é melhor. Só que também é mais cara. Então, eu escolherei sempre a Curva de Indiferença mais alta e à direita que minha restrição orçamentária permitir. No gráfico acima é C2.

Em geral, a restrição orçamentária tocará a curva de indiferença mais no meio do que nas pontas. Por que? Porque lembre-se que eu disse que a utilidade marginal é decrescente? Isto significa que eu prefiro consumir uma combinação entre 2 bens do que gastar todo meu dinheiro com um único bem. Aliás, quanto mais bens diferentes, melhor.

A Utilidade e a sociedade

Segundo os economistas utilitaristas, a sociedade deve ter como objetivo maximizar a utilidade total de indivíduos, apontando para “a maior felicidade para o maior número de pessoas na sociedade”.

Como disse no inicio, esta é a base da economia. Em resumo, como mostrei em O básico da Economia, como cada pessoa tem uma habilidade específica como pescar, caçar, montar cabanas, etc… se cada um se especializar no que possui a maior aptidão e gosto em fazer, a produtividade da sociedade como um todo aumenta, gerando ganhos para todos.

E como a utilidade marginal é decrescente, ou seja, o centésimo peixe pescado pelo pescador vale menos que uma banana, ocorre a troca. Assim, é só cada um trocar o que produziu com o que os outros produziram. E no fim, além da produtividade otimizada, a satisfação e o bem estar também são.

Quanto mais produção e quanto mais troca houver numa sociedade, melhor será a alocação final dos bens e maior será a satisfação de seus indivíduos.

A todos, um grande abraço!

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