McDonalds

A festa à fantasia dos adolescentes gaúchos foi um endosso ao artigo publicado aqui no mesmo fim de semana: O País dos Zé Ninguéns. Nele, narro as diferenças tão perceptíveis no tratamento entre os cidadãos de profissões diferentes na Europa e no Brasil.

Num, o respeito mútuo independente do grau de qualificação, no outro, uma sociedade arrogante e prepotente, separada em castas. E eu nem preciso dizer qual é qual. O leitor certamente saberá identificar.

Mas não me levem a mal, culpar os adolescentes gaúchos por sua festa é como culpar o mensageiro por entregar uma notícia ruim. Era apenas uma brincadeira. Só que brincar com verdades, machuca. Este é o problema. Estes adolescentes não criaram este apartheid cultural. Eles apenas nos mostraram o quão escrachado ele é.

Não é a festa a fantasia o problema do Brasil, é a vida real. 

Se nada desse certo, mostravam suas fantasias, eles seriam garis, revendedoras de cosméticos, faxineiras, cozinheiros, atendentes de telemarketing, fritadores de hambúrguer em cadeias de fast food, ambulantes. Normal num país em que muitos sentem pena de quem tem este tipo de emprego, como se pessoas de outras profissões tivessem maior valor. 

O problema não é contratar alguém para limpar o seu banheiro, amigos. A profissionalização e a divisão de tarefas é benéfica para toda a sociedade. O problema é achar que quem limpa o banheiro tem menos valor. É isso.

Onde não se valoriza o trabalho, não se entende sua importância. No Brasil, uma parte da população ainda vê o trabalho honesto como uma forma de exploração quando ele deveria ser visto como motivo de orgulho. 

Nas festas de fim de ano da multinacional alemã onde eu trabalhava, o CFO da empresa, um alemão em seus 50 anos, pagava seus filhos para servir os convidados da festa. Poderia ser normal, mas as pessoas comentavam. Falavam bem, diga-se de passagem, mas ainda assim era digno de nota. Na nossa cultura, isto é visto como diferente. O filho dos Beckham trabalhava em um café. O de Warren Buffet, dirigia trator em colheita nos EUA. E por aí vai.  

No Brasil, isto é exótico. Para alguns, limpar banheiro ou servir comida é algo tão inimaginavelmente ruim que a culpa só pode ser do patrão por colocar alguém para se rebaixar tanto. O trabalho choca.

Aí, incomoda-se com um empregado doméstico trabalhando num Domingo de Sol. Surpresa: pode-se trabalhar em dia de manifestações também! E não há nada errado nisso. O trabalho honesto, honra, não importa o seu papel, não importa sua qualificação. Não é vergonha trabalhar seja do que for, tanto quanto não é vergonha empregar alguém.

Criar emprego e trabalhar são igual e indissociavelmente importantes.

E como disse Cora Ronai, esta festa põe em evidência uma das maiores desgraças do Brasil, este país de doutores: a ideia de que, sem um diploma universitário, o cidadão não vale nada, e fracassou na vida.  

O culto do curso superior deforma toda a estrutura do país. Trocamos bons cursos profissionalizantes por péssimas universidades. Não formamos mão de obra especializada, mas temos centenas de milhares de bacharéis que jamais trabalharão nas suas especialidades.

Mas, num país que ainda não conseguiu se livrar da herança escravocrata, diploma bom não é necessariamente um diploma que se traduz em conhecimento, mas sim o que se traduz em prestígio. Serviços e trabalhos manuais, sejam quais forem, são considerados ocupações de segunda classe, para quem “não deu certo”.

É a essa visão distorcida que o Brasil deve a sua escassez de empreendedores. Em sociedades menos preconceituosas, jovens cortam a grama dos vizinhos, entregam pizza, servem em lanchonetes e restaurantes e fazem toda a sorte de pequenos serviços. Com isso, aprendem não só o valor do dinheiro, mas o valor dos seres humanos. Aprendem também, desde cedo, uma ética de trabalho que não se conquista com a mesada dos pais.

E o melhor? O Texto de Rodrigo da Silva, grosseiro mas verdadeiro, publicado em seu Facebook esta semana e que replico aqui:

Eu trabalhei no McDonald’s, há mais de uma década. Foi meu primeiro emprego.

A tarefa era a mais variada possível. Eu fritava hambúrguer, batata-frita, atendia às pessoas mais esquisitas da face da terra, preparava alguns sorvetes, lavava banheiro.

Eu tinha 17 anos e quase nada a oferecer para o mundo em troca de alguns centavos por hora. É muito difícil para um garoto dessa idade entender por que raios ele está naquele lugar com cheiro de gordura, ganhando um salário baixo. O grande Louis CK, felizmente, é capaz de explicar isso tudo com uma finesse muito maior que a minha.

– Sabe por quê? Porque você é um merdinh* de vinte anos que não tem ideia de como o mundo funciona. Porque você acha que merece coisa melhor. Se acha interessante demais pra ter um trabalho desses. Mas é por isso que deram ele pra você! Porque você tem vinte anos, então é matematicamente garantido que você não sabe fazer muito e tem pouco pra oferecer ao mundo. Você tem vinte anos! Por duas décadas você estava só recebendo e sugando… educação, amor, comida, iPods… Só sugando e julgando… Só escolhendo e absorvendo coisas que você não trabalhou pra ter. Por duas décadas! Isso é quanto tempo você tem sido um peso morto.

E então, bingo, o McDonald’s surge como a melhor oportunidade possível para você finalmente alcançar algum nível de produtividade na vida. Com sorte, você conseguirá provar para o mundo que é capaz de fritar alguns hamburgers e comprar um par de tênis com a sua própria carteira. Parece bom o bastante.

DO YOUR JOB!

Jeff Bezos, Jay Leno, Pharrell Williams, Rachel McAdams, Sharon Stone, Shania Twain, James Franco, Carl Lewis seguiram por esse caminho. Todos adolescentes sem rigorosamente nada a oferecer para o mundo encontrando no McDonald’s seus primeiros centavos.

Nenhum deles achava que estava “dando errado”. Não estavam. Se há um caminho possível, aliás, para dar certo na vida ele começa necessariamente em entender a sua posição no mundo.

E esse é um dos maiores problemas do nosso tempo. Nós ainda não saímos da adolescência.

Encare esse lugar, sua rede social. A maior parte do nosso debate político por aqui é travado por jovens que se acham os seres mais interessantes do planeta, incapazes de imaginar um país onde o governo não cuide de cada processo de suas vidas.

É apenas nisso que se resume todos os seus discursos. Conseguir coisas de graça.

Eles querem hospital. E escola. E água. E emprego. E bolsa. E cota. E universidade. E diversão. E querem os cuidados do governo da maternidade ao túmulo, do horário de acordar ao horário de dormir, da primeira série à pós-graduação, do primeiro estágio à aposentadoria.

McDonald’s? Impossível. Trabalho escravo, eles dizem.

E eu sei que pareço um velho no leito da morte falando coisas desse tipo, mas essa é a grande lição da vida:

Se nada der certo, você continuará adolescente para sempre.

Frágil.

Mimado.

Pretensioso.

Se tiver vocação suficiente para a preguiça, poderá até transformar a adolescência na sua grande ideologia política.

E não será difícil supor seu discurso com clichês anti-econômicos. Preocupado com microagressões e com um senso de superioridade moral irrefreável. Tentando salvar todo mundo: os mais pobres, a classe trabalhadora, o meio ambiente, as baleias. Com o dinheiro e o trabalho dos outros. Incapaz de amarrar o próprio cadarço.

Parece familiar o bastante para você?

Essa não é uma festa à fantasia. Esse é o mundo real. O seu mundo real.

E se nada der certo na vida, você morrerá sem entender de verdade o que isso tudo significa.

A todos, um grande abraço!

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Não adie mais, tempo é dinheiro!

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