BITCOIN BOLHA

Esta semana um dos meus melhores amigos levantou a pergunta num grupo de Whats App: ‘quem aí investe ou já investiu em Bitcoin?’

Ele estava simplesmente fascinado com o retorno que alguns conhecidos tem tido “investindo” na “moeda”… (isso mesmo, vale esse monte de aspas assim mesmo).

Depois, foi a vez da minha melhor amiga. Depois, mais uma… foi assim toda a semana, gente me marcando em reportagens sobre a moeda etc.

Quem acompanha o mundo dos investimentos conhece a estória de como Joe Kennedy, pai do presidente americano John F. Kennedy, evitou as perdas do mercado financeiro em 1929. Diz a lenda que quando ouviu seu engraxate lhe dar dicas sobre que ações comprar, vendeu todo o seu portfólio. Tava claro que ninguém ali tinha a menor ideia do que estava fazendo.

A história das bolhas é extremamente antiga. Pode parecer ridículo vendo em perspectiva, mas no século XVII os holandeses entraram num frenesi investindo em tulipas! Imagina trocar sua casa por uma planta? Parece loucura, mas é história real. Já escrevi sobre isso aqui no blog. Além da bolha das tulipas, tiveram várias e várias na história do homem (mais recentemente uma bolha imobiliária nos EUA que fez estourar a maior crise desde 29).

É incrível o que as pessoas são capazes de fazer em troca de uma promessa de enriquecer de forma mágica que não envolva trabalho, esforço, paciência, empreendedorismo…

Basta observar quantas pessoas jogam na Mega Sena todo ano com a certeza de que irão ganhar!

Eu quero deixar claro que não sou contra a ideia de moedas digitais e privadas que não dependam de bancos centrais. Muito pelo contrário, sou totalmente a favor da ideia de uma moeda que não esteja subjugada a Políticas Monetárias como as aplicadas por um governo bem “rouss”entemente no Brasil (só não digo qual) ou as do Governo Americano.

Essas cripto moedas não inventaram a moeda privada, amigos! A história da moeda está ligada a muitas moedas privadas! Muitas! Embora moedas em suas diversas formas existam há muito muito muito tempo, o controle delas por bancos centrais é relativamente recente. O Banco Central do Brasil, por exemplo, só surgiu nos anos 60, vai! E ainda hoje, qualquer loja, por exemplo, pode te emitir um vale, que não deixa de ser um tipo de moeda. É isso que moedas são: vales de troca por bens ou serviços.

Não é esta a questão.

A questão é que uma moeda deve ser três funções básicas: 1) meio de troca: intermediário entre bens e serviços; 2) unidade de conta: ser o instrumento pelo qual os bens são cotados; e 3) reserva de valor: poder de compra que se mantém no tempo.

Senhores, eu mal consigo comprar um pão na esquina aqui de casa com bitcoins! Que porr@ de moeda é essa? O especulador fica todo feliz porque tem uma padaria em São Paulo ou em NYC que “JÁ” aceita bitcoin… depois de 10 anos da existência da moeda!

E quem transfere o dinheiro para sua corretora a fim de comprar cripto moedas, o faz esperando um ganho com a valorização da moeda ou para usar ela para comprar algo? E quem de fato compra, o faz pela facilidade ou para postar que ~incrivelmente~ “JÁ” pode usar para isso e para aquilo?

Enfim, não é um meio de troca porque o número de estabelecimentos que aceitam hoje pode estar aumentando, mas ainda é muito, muito limitado! Não é unidade de conta porque os bens continuam cotados em seus valores em moedas tradicionais. Não é reserva de valor porque a volatilidade da moeda cria oscilações enormes em seu valor.

Enfim, é tão moeda quanto um vale da Zara. Se bem que o vale da Zara continua valendo a mesma coisa ao longo do tempo.

Nada contra moedas digitais, moedas privadas etc. repito! Serão muito bem vindas! Quando forem aceitas amplamente as usarei muito feliz. Mas como MOEDA! No dia-a-dia para as minhas trocas normais, como qualquer outra moeda. Não como um investimento.

“…mas Riko, essas moedas são o futuro”.

Me faz lembrar a história que contei em outro artigo aqui sobre uma apresentação que Warren Buffet fez em 1999 num encontro anual de investidores pouco antes do estouro da bolha das empresas ponto.com no inicio dos anos 2000 nos EUA.

Alguns trechos da apresentação de Buffet naquele ano:

Esta é uma lista de 70 páginas com as maiores empresas automobilísticas dos EUA. Existiam mais de 2 mil empresas deste tipo nos EUA: o automóvel foi provavelmente a invenção mais importante da primeira metade do século XX. Teve um impacto imenso na vida das pessoas. Se, na época dos primeiros carros, vocês soubessem como o desenvolvimento do país estaria atrelado a eles, teriam dito: ‘Preciso entrar nessa’.

Porém, daquelas 2 mil empresas originais, segundo dados do ano passado, apenas 3 sobreviveram. E, todas as 3 estiveram a venda por menos que seu valor contábil, ou seja, menos do que foi aplicado nelas. De modo que o automóvel teve um impacto impressionante na vida dos americanos. Mas não foi tão positivo para seus investidores.

Outra grande invenção da época foi o primeiro avião. Entre 1919 e 1939 havia cerca de 200 companhias de aviação. Imagina se você tivesse sido visionário bastante para imaginar um mundo sem precedentes.

De acordo com dados de poucos anos atrás, o conjunto de todas as ações investidas na história da aviação rendeu zero dólares.

É maravilhoso promover novas indústrias, pois elas são muito fáceis de se promover. Já promover investimentos em produtos comuns é muito difícil. É muito mais fácil promover produtos exóticos, mesmo que dê prejuízos, pois não há um parâmetro quantitativo.”

Mas as pessoas vão continuar investindo mesmo assim como na história do petroleiro que chega no céu. Daí São Pedro diz: ‘Você não vai poder ficar aqui. Mantemos os petroleiros todos naquele cercado e como você pode ver, ele está cheio, sem espaço para você.’ Então o petroleiro grita: ‘Descobriram petróleo no inferno.’ Obviamente a tranca arrebenta e todos os petroleiros correm para o inferno em busca do petróleo. ‘Ótimo truque’ diz São Pedro, ‘Agora você tem todo o cercado para você. E o petroleiro então responde ‘ Eu não. Acho que vou descer com o resto do pessoal. Vai que o boato tem um fundo de verdade’. É assim que as pessoas se comportam com investimentos. É muito fácil acreditar que um boato tenha um fundo de verdade.”

A internet mudou completamente nossas vidas, mas em 2000 diversos investidores perderam dinheiro com este investimento no que ficou conhecido como a bolha das pontocom. Este foi, inclusive, o embrião do que viria a ser a Crise de 2008 (assunto para um texto inteiro).

Em 1999, um investidor de empresas de tecnologia diria que Warren Buffet estava velho, gagá, ultrapassado etc. Em 2017, é um dos 3 homens mais ricos do mundo investindo em empresas “chatas” e já estabelecidas. Fazendo exatamente o que qualquer um de nós poderia fazer… sem precisar ser um “visionário revolucionário”.

E ainda como respondi ao meu amigo, essa estória de que basta ser o futuro para valer a pena não cola. Prostituição é a profissão mais antiga do mundo e ainda hoje dá dinheiro.

Mas atrai as pessoas que buscam uma justificativa a qualquer custo para suas decisões.

“Desta vez é diferente” é o conhecido lema das bolhas econômicas na história, dando inclusive nome ao best seller de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff: “Desta vez é diferente, oito séculos de delírios financeiros” de 2009. No livro eles mostram que no final, todas as bolhas são semelhantes e seguem a um ciclo.

Bolha

Se eu tivesse que chutar, diria que apesar de todo estardalhaço, esta bolha me parece ainda estar em formação, entre Media Attention e Enthusiasm. Não deve estourar tão cedo. Muita gente desconfiada, acusando o investimento de bolha e de furada ainda verá muitos “avisados” enriquecer. O próximo passo é os argumentos a favor do investimento se tornarem mais sólidos e serem comprados até pelos antigos céticos que não vão querer perder mais uma oportunidade (já perderam muitas). No final, o que todo mundo quer é lucrar. É o jogo da batata quente, a ideia é que não estoure na sua mão.

Foram construídas moedas digitais. Elas poderiam ser úteis para trocas, mas quantas das pessoas que estão comprando o fazem para usar a moeda como forma de troca? Todos querem revender com lucro, uma típica pirâmide financeira na aposta de que sempre haverá um mais tolo para pagar mais caro.

Não significa que não acredito no poder das cripto moedas. É o seu uso atual que me incomoda. Tanto quanto denunciar uma bolha imobiliária não me faria contra a existência de “casas”! Ora!

No ínterim, eu diria que enquanto traders e especuladores estão concentrados em cripto moedas, a bolsa de valores está livre para investidores de longo prazo.

A farra vai continuar…

Até que alguém grite que o rei está nú.

A todos, um grande abraço!!

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