rio cinza

Nos últimos meses andei bem ocupado tratando da minha mudança de cidade, de emprego, cuidando das crianças enquanto minha esposa viajava à trabalho… sem muito tempo para interagir.

Nos últimos dias, as coisas mais calmas, resolvi mandar mensagens para alguns dos amigos no Brasil que haviam tentado falar comigo nesse período e que, por falta de tempo, acabei não alongando as conversas por What’s App.

“E aí, enfim, como é que vão as coisas?”

As respostas seguiram um padrão, todos estavam animados e esperançosos com o novo ano que chegou. Um deles foi além: “Tô animado! O clima geral aqui mudou com Bolsonaro. Economia, segurança, etc. Esse ano vai ser muito bom!”

Elas estão otimistas por causa do novo presidente.

Impressionante. Um único homem capaz de alterar a vida de todas essas pessoas.

Um Rio acinzentado 

Faz 2 anos e meio que saí do Brasil e por um motivo ou outro (motivos que respondem em geral pelo nome de Victoria) não voltei mais. Mas em Outubro passado tive que ir mais em caráter de urgência para resolver coisas pessoais do que para curtir férias.

O que encontrei assim que desci do Aeroporto do Galeão me surpreendeu e entristeceu um pouco, devo dizer. Minhas recordações da semana que passei no Rio em Outubro passado são um mix entre a felicidade enorme de encontrar alguns grandes amigos e a tristeza que senti pela cidade que eu tanto amo.

O Rio, no primeiro dia que vi, me parecia uma espécie de Atlanta do The Walking Dead. Muitas lojas fechadas, as que estavam abertas não pareciam investir na manutenção… e o pior, não encontrei por lá nenhum traço da cidade mais linda e feliz do mundo. Tudo era cinza. O tom de voz e o conteúdo da conversa das pessoas nas ruas, a praia… 

O problema é de auto-estima 

O mais curioso de tudo é que, apesar do ponto de vista catastrófico que muita gente me passou nos últimos 2 anos, o que encontrei de fato em termos de cidade foi até bem melhor do que a cidade que eu deixei. Um paradoxo enorme.

A infraestrutura do Rio melhorou muito, o metrô, BrTs, a duplicação do viaduto de São Conrado… tudo melhorou. Sobre  a violência, não me deparei com nenhuma situação em que me sentisse intimidado ou algo muito diferente do que sempre foi.

Na verdade, não encontrei absolutamente nada que justificasse toda aquela auto-estima acinzentada que encontrei quando cheguei.

A crise econômica existe, isso é inegável e fica claro na quantidade de placas ‘vende-se’ penduradas nas janelas e varandas dos apartamentos. Mas apesar disso, a maior parte das pessoas que encontrei estão muito bem.

Depois de um pouco menos de 10 dias lá, voltei para casa convencido que se tratava de uma crise de auto-estima, algo que existia muito mais na cabeça das pessoas. Nunca vi nada parecido. Impressionante!

O Governo e a vida pessoal 

Na virada do ano, lembro de ter comentado com o meu pai ao dar uma olhada nas redes sociais: “as pessoas parecem estar mais animadas com o novo Governo do que com o novo ano.”

As mensagens que recebi nesta semana confirmam minha percepção. Não são todos, mas acho que uma grande parte.

É muito difícil entender isso tudo estando fora do Brasil. A impressão que tenho é que o novo Governo simboliza a esperança de novos dias.

A mudança do país é um reflexo da mudança nas vidas pessoais de cada um dos brasileiros. O que quero dizer é: que poder é esse que um presidente da República assume na vida pessoal desses cidadãos?

Ele simboliza muitas coisas, desde a volta ao sorriso, o fim do cinza e o fim de todo o mal no país: o PT. 

Então quando Bolsonaro é criticado pela imprensa, é como se estivesse golpeando o sorriso dessas pessoas. É como se estivessem atacando elas diretamente. Os comentários, a você de julgar: “Onde vocês estavam na época do PT?”, “FakeNews”, “A eleição acabou, desiste!” etc… Os ataques se voltam à imprensa!!

Todos os presidentes da República foram alvos da imprensa. No Brasil ou no mundo. Nem todas as notícias são de fato verdadeiras. Nunca foram. Mas esse é o preço que se paga pela liberdade de imprensa, ou até bem mais, pela liberdade de expressão. 

Essa é a base da democracia. 

“Eu posso não concordar com uma única palavra do que você diz, mas darei a minha vida pelo seu direito de falar.”

Voltaire

E o Lula? Tá preso, babaca!

É fato que uma parte do que somos e da situação em que vivemos depende do contexto externo, de fatores que temos pouco ou nenhuma gerência. Mas a maior parte, acredito, depende mesmo é de nós! Esse é, inclusive, o conceito de “Sujeito x Sujeitado” que apresento no meu livro “E se você não morrer amanhã?”. É preciso assumir nossa responsabilidade em nossas vidas. 

Mas aparentemente, é mais confortável acreditar que as coisas vão melhorar apenas por conta da troca de um presidente.

Falei antes, mas acho que vale repetir aqui. Na definição de base do populismo, o conceito chave é encontrar um inimigo em comum. Nos regimes socialistas, o inimigo é a elite, os banqueiros, etc.. Na extrema direita europeia e norte americana, o inimigo é o imigrante. No Brasil de hoje, é a “ameaça socialista”.

Em outras palavras, o Governo Bolsonaro precisa do PT para ter força. Mesmo que o PT hoje esteja sobrevivendo por aparelhos.

No subconsciente das pessoas foi construída a ideia de que todos os problemas particulares nas vidas das pessoas se devem única e exclusivamente por causa do PT.

PQP! Eu passei 5 anos da minha vida aqui criticando tudo o que julgava errado no Governo Dilma. Nunca na minha vida votei ou me imaginaria votando no PT por total falta de convergência ideológica.

Mas meu camarada, o PT está morto! Lula está preso. E os problemas na sua vida, lamento lhe informar, são também problemas seus!

É do ser humano personalizar sucesso e fracasso. Criar heróis e vilões que sejam capazes de carregar fardos e responsabilidades que não queremos mais carregar. 

É um jogo perigoso este que está sendo jogado no Brasil.

Não é questão de ser contra ou a favor de um Governo.

É que nenhum Governo deve ultrapassar a responsabilidade do que foi eleito para fazer, que é cuidar da máquina pública.

Apenas.

A vida particular das pessoas, às pessoas.

Fico feliz com o otimismo dos meus amigos.

Mas de coração preferia que a razão fosse outra…

A todos, um grande abraço!

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