bolsonaro

“Convenhamos, Bolsonaro não leva o menor cacoete para exercer o papel de líder.

Não como Nabuco ou Thatcher. Muito menos como Reagan ou Churchill.

A direita tem grandes estadistas em seu panteão. Bolsonaro não é um deles.

Bolsonaro é um sujeito que passou noventa e nove por cento do seu tempo em Brasília escondido nos corredores do baixo clero legislativo.

Nunca foi líder de governo ou de oposição. Nunca presidiu a Câmara. Nunca foi prefeito, governador ou ministro. Nunca foi autoridade no que quer que seja.

Mesmo sua influência intelectual pelo olavismo é significativamente recente.

Mesmo seu apreço pelas ideias de seu ministro da economia é resultado de um trabalho de pouquíssimos meses – quando o capitão subitamente deixou de fazer oposição ao liberalismo econômico para admitir transformá-lo na principal bandeira de seu governo.

Sua carreira pode ser resumida como a de um representante sindical que emergiu lutando pelos interesses de uma classe muito específica de trabalhadores. Mais um dos tantos que enviamos de quatro em quatro anos pra capital do país.

Nada disso é parecido com o que desejaríamos agora: um presidente da República capaz de pacificar os interesses dos diferentes grupos de pressão que circundam o poder, de discursar eloquentemente para uma grande audiência internacional e devolver confiança aos investidores, de aparar os constantes arranca-rabos dentro do seu próprio partido, de unificar as duas casas legislativas em torno das reformas que escancaram as vísceras do país ou de reunir recursos intelectuais para debater ideias fundamentais para o cargo, como geopolítica, macroeconomia e administração pública.

Bolsonaro alcançou esta posição graças ao imenso buraco deixado pelos partidos tradicionais, que por pelo menos uma década ignoraram o crescente desejo de uma parcela significativa da população por políticas associadas ao campo da direita – como intransigência com o crime, desburocratização, o fim das relações político-econômicas com ditaduras de esquerda latino-americanas e controle dos gastos públicos.

Bolsonaro é agora o chefe do governo pela completa incapacidade dos tucanos em se apresentarem como uma opção a essa demanda, escondidos atrás do tecnicismo da burocracia e de alas mais próximas ideologicamente ao petismo que alguns atores do próprio PT – e porque do outro lado estava a cleptocracia petista.

Bolsonaro reside num palácio nesse momento graças ao acirramento ideológico provocado pela ascensão de movimentos pró-minorias hiperbólicos e radicais que se escondem atrás de bandeiras justas, perfeitamente compreensíveis e originalmente liberais (a igualdade de direitos) para semear um constante clima de neurose e provocar uma caça às bruxas irracional aos não-convertidos, parindo uma nova direita inflexível como alternativa eleitoral.

Bolsonaro, enfim, é o presidente da nação porque soube reconhecer as suas limitações e se transformar num produto político de três grupos incomparavelmente mais sofisticados para o debate público do que ele: os teóricos conservadores (que dialogam com as bases), os economistas liberais (que flertam com o mercado) e os militares (que se relacionam com as estruturas da burocracia).

O mérito, no entanto, de ser o homem certo, na hora certa e no lugar certo, preenchendo uma demanda do próprio jogo democrático com o esgotamento do trabalhismo – e a humildade de reconhecer suas deficiências intelectuais, fatiando o poder com grupos com significativa liberdade de ação – não o transformará automaticamente numa grande liderança política.

Este é de longe o maior desafio que o seu governo terá pela frente: será preciso muito mais do que carisma, frases de efeito e truculência para aguentar os trancos da poltrona mais cobiçada do planalto central.”

Obrigado Rodrigo da Silva!

Obrigado Spotniks!

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