Quem me conhece bem ja ouviu falar nela…

Até os meus 10 anos de idade, fui criado pela Cacá.

Ela só tinha estudado até a 5ª série, mas sabia muito sobre a vida e teve boa vontade em me passar um pouco do que sabia.

Isso foi algo que ela tomou isso pra si como missão de vida e vivia mudando de casa em casa uma vez que as crianças de quem cuidava iam crescendo, uma espécie de Mary Poppins do mundo moderno.

Uma coisa que Caca me ensinou e sempre carreguei comigo é que independente da merd@ que eu poderia ter feito, a Cacá não iria brigar contanto que eu lhe falasse a verdade.

Era um trato simples que a gente tinha, mas ao mesmo tempo uma lição importante sobre valores.

Desta forma, ela estaria sempre ciente do que eu estaria fazendo.

Assim, ela me ensinou que errar é normal e que deve ser encarado como tal.

A verdade é que as pessoas que usam o subterfúgio da mentira acabam perdendo uma grande oportunidade de aprender.

Em geral, os pais que exageram com uma criança quando fez alguma besteira acabam por gerar nelas um incentivo para esconder uma verdade quando sabem que serão repreendidas.

O resultado: crianças que perdem a oportunidade de aprender o porquê não deveriam ter feito o que fizeram.

Caca
Eu e Cacá. Dupla infalível!

Quer dizer que não deve-se brigar com crianças independente do que fizerem?

Não, é claro que não é isso que estou dizendo. O ponto aqui é encarar os erros como algo normal na vida e que devem ser usados de forma produtiva, ou seja, como um trampolim para o crescimento.

Não se limita a crianças.

Carol Dweck em Mindset, separa os indivíduos em 2 tipos de mentalidades. No mindset fixo, a pessoa acredita que as habilidades e a inteligência são coisas inerentes a sua personalidade e, portanto, imutáveis. Ou ela é inteligente ou não é, ou tem determinada habilidade ou não tem. É muito comum, no mindset fixo, predominar a vaidade, a hostilidade e a exaltação de talentos ditos natos; os erros são fatais e se acredita na limitação do aprendizado.

Já no mindset de crescimento, os obstáculos e as limitações sempre revelam uma oportunidade de superação e aprendizado. O esforço é essencial e a valorização do trabalho duro e do mérito, em vez de apenas premiar o resultado. Segundo a autora, por trás de toda personalidade de sucesso há muito trabalho, esforço, prática e empenho. Há muitos tropeços também, cada um deles servindo a muito aprendizado.

A questão é que a pessoa com o mindset fixo é a que tem incentivos a mentir. Foram criadas acreditando que se fizessem besteira seriam tachadas como levadas, difíceis, pestes… se tivessem dificuldades na escola é porque não “nasceram inteligentes” – perderam oportunidades de fazer perguntas que nunca saberão as respostas. Se não performassem num determinado esporte é porque não tinham nascido para aquilo… como se sucesso não fosse o resultado de muito esforço e aprendizado.

“Eu nunca falhei. Apenas encontrei 10 mil maneiras que não davam certo.” (Thomas Edison)

Ray Dalio, um dos maiores investidores da história, em seu livro Princípios, fala sobre os valores da sua empresa Bridgewaters. Um dos capítulos do livro se chama “Crie uma cultura em que é OK errar, mas inaceitável não aprender com eles”.

Alguns trechos desse capítulo:

  • Sempre achei que os pais e as escolas enfatizam demais o valor de ter as respostas certas o tempo todo. Para mim, os melhores alunos na escola nem sempre são bons na vida real porque muitos tendem a negligenciar a importância de aprender com os erros porque foram condicionados a associar erros a derrotas ao invés de a oportunidades. Esse é um impedimento enorme para o progresso deles. Pessoas inteligentes que enfrentam seus erros e fraquezas tendem a ter mais sucesso que os que tem as mesmas habilidades, mas encaram uma barreira de ego enorme.
  • Um instrutor de esqui que era o mesmo do Michael Jordan me disse que ele revelou que via cada um de seus erros como oportunidade de melhorar. Ele entendeu que os erros são como um quebra-cabeças e que quando você entende e resolve, você ganha um prêmio. Cada erro que você descobrir e aprender com ele, vai se salvar de milhares de erros similares no futuro.
  • Se preocupar com “culpa” e “crédito” ou feedbacks positivos ou negativos impedem o processo de desenvolvimento. Lembre que o que passou está no passado e não interessa mais, senão como lição para o futuro.

Esse último ponto, em especial, eu estresso no meu livro “E se você não morrer amanhã?”. Lá, eu falo do valor do “Foco na solução e não no problema”. É uma hierarquia. Uma vez o problema resolvido, a atenção se volta para como não mais repeti-lo na frente. Sem represálias.

“De quem é a culpa?” “Quem fez isso?” doem meus ouvidos. Claro, depende do tom… as vezes é só para explicar. Mas na maior parte das vezes… pode apostar… é para tachar e encontrar o culpado.

Tudo isso tem a ver com os 2 tipos de mindset.

Admitir um erro e encará-lo de frente, sem medo de punição, de represália, ou receio de que venha a ser taxado disso ou daquilo…sem vergonha… é fundamental. É o que possibilita usar os erros para aprender, uma ferramenta poderosíssima.

A mentira pode até fazer alguém se sentir bem consigo mesmo momentaneamente, mas vai te prender num mundo que só existe na sua cabeça. Um mundo onde o que você se esconde numa imagem que você mesmo, no fundo, sempre saberá que não é verdadeira. E pior, sem encarar de frente a oportunidade de mudá-la.

A verdade por outro lado é libertadora. Se aceitar como um humano que erra, mas sempre com a vontade de aprender com seus erros.

É o que a Cacá me ensinou quando pequeno… é o que, com sorte, conseguirei passar para minhas crianças…

A todos um grande abraço!
Riko Assumpção

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