1929 - 2

Setembro 2008

No dia 15/09/08, o quarto maior banco de investimento dos EUA colapsa e as bolsas mundiais afundam. No Brasil, em 29 de Setembro, é ativado o Circuit Breaker (quando a queda média é superior a 10%, a bolsa interrompe os negocios por alguns minutos para deixar os investidores, vamos dizer assim, se acalmarem). O circuit breaker voltaria 5 vezes mais durante o mês de Outubro daquele ano.

2008 foi um ano curioso para a Bolsa brasileira. Em Maio, embalado pelas descobertas do pré-sal alguns meses antes, o otimismo com o império EBX, e, principalmente o grau de investimento dado pelas agências de risco naquele mês, o Ibovespa bateu seu recorde histórico:  73 mil pontos, o equivalente a mais de 135 mil pontos hoje se ajustarmos pela inflação.

Tudo isso para alguns meses mais tarde despencar até os 29 mil pontos no segundo semestre.

2008 foi o ano em que passei de estagiário a analista e em espaço de meses a Trainee de uma grande empresa de Telecom (grande na época). Tudo isso aconteceu enquanto eu ainda cursava a faculdade economia na UFRJ.

Em paralelo, eu cursava Relações Internacionais na Estácio e apesar de ter concluído o curso 3 anos antes, nunca havia pego o diploma. Já que tinha decidido percorrer o caminho de Economia, não via o porquê (e tinha pouco tempo disponível) de ter que fazer as horas complementares que eu precisava.

A oferta de emprego era o empurrão que me faltava. Para ser efetivado como analista, eu precisava do meu diploma e então em Julho de 2008 decidi me inscrever no Curso de Mercado de Ações na Estácio.

Eu já investia na Bolsa há algum tempo, tinha lido diversos livros sobre mercado financeiro, feito cursos na Anbima, e pego todas as optativas de Mercado Financeiro possíveis.

Então, eu cheguei no primeiro sábado no Campus Tom Jobim da Barra, bermuda, chinelo e a camisa do Flamengo para aprender alguma coisa.

Eu acredito que sempre há algo a se aprender. Sempre!

O curso era básico, mas o professor não se contentou com isso. Onde podia buscava complicar conceitos simples. Mas esse não era nem de longe o problema. Ele simplesmente inventava coisas aleatórias, talvez acreditando que ao usar jargões complexos sem nenhum fundamento pudesse convencer os alunos de que dominava o assunto. Eu nunca vi uma aula desse jeito. Nunca! O pior é que parecia surtir efeito e os alunos acreditavam.

Um dia o professor disse que a Bolsa iria chegar até o fim daquele ano aos 100 mil pontos. Hoje, seria o equivalente a 200 mil pontos. Em Julho, a bolsa já caía em relação ao pico de Maio e os problemas na economia americana ja eram visíveis.

Tudo é a maneira como a gente coloca. Uma coisa é dizer que há possibilidade, dizer que acredita, até certeza pessoal é aceitável: “anotem o que eu digo”. O que não se pode é vender isso como uma certeza técnica: “alunos, é o que os especialista afirmam, e portanto, é o que irá acontecer”.

Durante um break da aula, um casal de aposentados me confidenciou ter pego todas suas economias da Poupança e aplicado tudo na bolsa. Em Julho de 2008, apenas 2 meses antes do crash.

Aquela aula me fazia mal. Um professor alucinado e irresponsável, sem nenhum conhecimento técnico (e que talvez nem precisasse ter naquele nível de curso) cospindo coisas sem sentido para uma turma que estava ávida a começar a investir influenciada pelas capas de revistas que mostravam como investidores individuais se tornavam milionários em poucos anos apenas investindo em ações…

Eu sobrevivi àquele curso inesquecível (12 anos depois e a memória continua vívida).

Em Setembro, as bolsas estouraram.

Não sei o que aconteceu com o casal de aposentados, mas eu tive a sorte de estar recebendo meus primeiros salários.

Então eu comprei ações. Comprei, e depois comprei e depois comprei mais. Ações despencavam, eu comprava.

Minha leitura na época era que a queda estava acentuada demais. A crise era uma crise financeira, a liquidez secou e como não havia mais dinheiro disponível aos investidores, esses foram obrigados a sair. Na economia real, o impacto tinha tudo para ser mais suave que no mundo financeiro. O Brasil ia bem, a inflação estava sob controle, o PIB crescia, havia otimismo.

A crise de 2008, ao meu ver, afetava preços de uma forma muito mais intensa do que valores das empresas de fato.

“Preço é o que se paga. Valor é o que se leva.” (Warren Buffet)

Alguns investimentos, multipliquei por 4. Em outros, os ganhos foram mais modestos, “apenas dobrei”.

Maio 2020

Fast forward no tempo e o Coronavirus faz as bolsas do mundo despencarem. Poucas semanas depois do reconhecimento do COVID-19 como uma pandemia, embaladas pelos diferentes estimulos dos Governos, as Bolsas no mundo voltaram a subir.

A NASDAQ, por exemplo, fechou 2019 cotada abaixo de 9 mil pontos. Em 22 de Maio, fechou a 9,3 mil pontos.

O mundo parece estar derretendo lá fora, mas as Bolsas não estão refletindo.

O que está acontecendo?

Eu tenho um palpite. A Crise de 2008 foi o estopim para um vício na dependencia da liquidez dos Bancos Centrais criando uma crença de que eles, os Bancos Centrais, fossem capazes de solucionar todos os problemas do mundo. 

Mas injeção de liquidez pode solucionar problemas de… liquidez. Só que esse não é o único problema que iremos enfrentar na Crise do Coronavirus.

Não estamos em 2008.

Lá, o problema eram subprimes e CDS – coisas que anos mais tarde ainda continuam longe da compreensão do público em geral. Mas pergunte a qualquer um na rua hj os impactos do Coronavirus na economia: restaurantes fechados, cinemas, salas de espetaculos, empresas, lojas, shoppings… não é no Brasil apenas. É no mundo inteiro. O turismo praticamente morreu. Outros setores não ficam atrás. Sem consumo, sem produção. Dívidas de Governos deverão explodir e ninguém nem tem ideia de quando e como será o fim disso tudo.

Quando foi decretado o lockdown em Paris, onde moro atualmente, a ideia é de que ficariamos 2 semanas presos em casa, mas o lockdown durou 2 meses. O mundo foi aprendendo e reajustando as expectativas, sempre para pior.

Hoje se fala de volta ao normal em 2022. Parece absurdo? Cada vez menos. Aburdo hoje era achar que duraria apenas 2 semanas. Não era aburdo na época.

Ninguém sabe ao certo quando uma vacina virá, e se virá algum dia. Ninguém tem certeza de que não haverá uma segunda onda de lockdowns. Ninguém sabe exatamente quais podem ser as consequências políticas de um provável aumento no (já crescente) populismo no mundo.

Quais seriam os impactos econômicos de uma crise diplomática séria entre os EUA e a China?

Ninguém sabe. Mas as Bolsas sobem.

A Crise de 2008 reforçou a ideia de que crises são oportunidades de compras. Como se o retorno fosse automatico, e que essa seria uma lei universal, tipo a lei da Gravidade.

Os estrangeiros saíram da Bolsa no Brasil, os profissionais estão mais cautelosos, mas as pessoas físicas estão confiantes de que é a oportunidade da vida de mudar o patamar econômico para sempre.

Para alguns, essa Crise é como um bilhete de loteria. Como se não houvesse nenhum impacto real por trás de tudo isso.

“Preço é o que se paga. Valor é o que se leva.” (Warren Buffet)

A Crise de 2008 foi a crise de 2008. A Crise de 2020 é a Crise de 2020. Em 2008 era uma crise financeira. Em 2020 a Crise é da economia real. Em 2008, ninguém deixou de ir fazer compras no shopping, jantar em restaurantes ou viajar. Não da noite para o dia, ao menos.

Mas é dificil entender, eu compreendo.

“Todo mundo diz que época de crise é época de oportunidade, eu sempre acho que é época de cautela.” Rogério Xavier, gestor e fundador da SPX

Setembro de 1929

A Crise de 1929 teve um efeito duradouro. Entre 1929 e 1932, o PIB mundial, estima-se, caiu 15%. O comércio internacional caiu 50% e o desemprego nos EUA atingiu 23%. O Dow Jones, índice da Bolsa Americana levou 25 anos para voltar ao patamar de antes.

25 anos!

1929

A Crise de 29 e a depressão da década que se seguiu estão entre os principais motivos que levaram Hitler ao poder na Alemanha (já enfraquecida pós 1a Guerra Mundial) e consequentemente à Segunda Grande Guerra.

O aumento no desemprego, a redução da atividade econômica, o empobrecimento da população e a falta de esperança geralmente levam a maior enclinação a aceitar discursos populistas de linguagem simples e direta, buscando culpados pelos nossos fracassos e vendendo a esperança de que uma vez o inimigo destruído, tudo será automaticamente melhor.

É preciso cautela nessas horas.

Para os que enxergam todo esse valor nas Bolsas hoje, (os que vão além do mera crença de que “crise = oportunidade”) os argumentos giram em torno de :

  • a economia em colapso deverá trazer maior consolidação nos setores (empresas grandes vão comprar empresas menores em dificuldades e sairão vencedores).
  • que empresas de tecnologia devem ter um papel cada vez mais relevante na economia.
  • não se trata unicamente de valorização de ações, mas sobretudo da redução do valor das moedas, uma vez que os juros devem permanecer baixos no mundo por mais tempo que previsto.

Pode ser… o futuro dirá.

Quem deseja investir em ações deve saber que enganar-se faz parte do jogo, mas eu tenho minha visão… e é de que estamos prestes a enfrentar algo totalmente novo e não conseguimos identificar o que é. Os riscos atuais não parecem justificar esse nîvel de preços nas bolsas.

Mas admitir que não sabemos talvez seja mais sensato do que a mensagem de um milhão de influencers nas redes sociais que, não sei o porquê mas me lembram mto uma sala de aula de um sábado na Barra da Tijuca no remoto ano de 2008.

Eh como eu sempre digo, a gente sempre aprende alguma coisa…

e aquele curso me ensinou muito mais sobre a Bolsa de Valores do que eu esperava.

Até a próxima,

Abraços

Riko Assumpção

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