– Artigo publicado uma semana antes devido às eleições –

Urna Brasil

Hoje, em meu voto teórico, eu estaria pronto a apertar o um e o sete, apesar de nenhuma afinidade ideológica com o candidato. Apenas a fim de evitar o que entendia ser o mal maior.

Mudei.

Meu voto seria nulo.

E não “apesar” do meu antipetismo, mas exatamente “por causa” dele.

O que vejo na corrente que defende Bolsonaro é exatamente o que mais me incomoda no PT durante todos esses anos.

Idolatria, radicalismo, ataques a quem pensa diferente, desprezo pelas instituições democráticas, e, o sentimento (estranho) de superioridade moral apesar disso tudo.

Não são todos, claro.

Eu entendo quem vota no Bolsonaro para evitar o PT. Os que estão cansados da corrupção. Os que acreditam que é melhor cometer erros novos do que erros antigos (volto a esse ponto mais tarde). Os que apostam suas fichas no Paulo Guedes.

Também entendo quem vota no PT para evitar o Bolsonaro. Entendo também os que votam no PT por nostalgia do tempo em que a vida parecia melhor e que ignoram qualquer relação entre a gastança populista dos governos petistas com a crise que vivemos hoje.

O que não entendo é esse sentimento de superioridade moral que sentem ambos os lados.

Vamos ser sinceros, as opções são péssimas.

Além de sua mediocridade absoluta, Bolsonaro não fez mais em suas décadas no Congresso Nacional do que atacar todas as instituições fundamentais da democracia, glorificar o passado da ditadura militar e louvar tudo o que fosse forma de violência política.

Do outro lado, um candidato-fantoche, representante de uma força política responsável por comandar os mais terríveis esquemas de corrupção e de ataque à democracia brasileira e, de quebra, fiadora de variadas formas de autoritarismo político no Brasil e afora.

Colocar #elenão na sua foto do perfil e defender o regime cubano não te torna pró-democracia, “companheiro”.

A democracia no Brasil é frágil.

Esse segundo turno nos mostra claramente isso. E a “culpa” não é das instituições. Ela é sobretudo frágil na cabeça do eleitor. O brasileiro médio é o cara que compra briga com a imprensa quando ela não noticia o que ele quer, que põe em dúvida institutos de pesquisas se os resultados não são os que ele quer, que acusam as urnas com medo de que o resultado seja diferente do que ele quer, ou que apontam para o MP, o judiciário ou Congresso quando o que devem fazer vai de encontro ao que se quer.

Democracia real passa por aceitar resultados com os quais não necessariamente se concorda.

Durante anos o PT acusou a quem pensava diferente deles de ser fascista, homofóbico, racista, elitista… O jogo sujo do PT acabou manipulando o mundo acadêmico com jovens inflados por seu discurso de criação de falsos inimigos. Acabou assim, destruindo políticos que pensavam simplesmente diferente deles e abrindo espaço para sua perpetuação no poder, fazendo “o diabo” com esse fim.

Acabou também criando esse fenômeno que é o candidato que, ao contrário dos demais que gastavam esforço e energia para desmentir as acusações, hoje bate no peito pra dizer “se as minorias não estiverem felizes, que se mandem”.

É claro que o PT criou o Bolsonaro.

Tínhamos outro caminho.

Foi no primeiro turno que dissemos não às causas humanistas, democráticas, liberais e tolerantes que, em uma democracia madura, estão consolidadas e bem distribuídas em todo o espectro político.

No final, o eleitor não entende como um jornal norte americano, um inglês, um francês, ou de qualquer outro lugar do mundo… podem atacar a candidatura de Bolsonaro.

Eu sei, é difícil para o brasileiro entender. Nas democracias mais avançadas, direitos humanos e democracia são valores intransponíveis. Não há espaço para 
“brincadeirinhas”.

Vamos lá, o capitão defendeu, em 1999, o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso; pediu, em 1992, o fechamento do Congresso, e até cuspiu em documento oficial em sessão plenária em 1994. Já foi eleitor de Lula e já defendeu o comunista Aldo Rebello para o ministério da Defesa no primeiro governo do ex-presidente petista.

Lhe falta qualquer coerência política ou ideológica e é instintivamente contra qualquer princípio democrático, a única constância na vida do deputado foi a longa lista de insultos homofóbicos, machistas e racistas que lhe garantem alguma fama e muitos votos. Contra e a favor.

O retrato desse novo Brasil, onde valores que deveriam ser universais se dobram para caber em brincadeiras ou “coisas faladas sem pensar”.

Longe de mim bancar o politicamente correto. Erros até acontecem. Só que com o capitão, acontece muito.

O PT não é um milímetro melhor que isso. Com a doentia e mentirosa retórica do “golpe”, os “intelectuais” petistas acabaram por criar as condições de propagação de uma versão dos fatos segundo a qual os homens responsáveis por saquear o Estado, desviando bilhões para os cofres do partido, como Lula e José Dirceu, acabaram por se tornar “guerreiros do povo brasileiro”, “heróis” de uma resistência imaginada.

O que há de mais escandaloso diante do discurso petista em defesa da democracia e contra o “fascismo” de Bolsonaro é que não há uma única acusação relevante do ponto de vista moral em matéria de liberdades políticas e defesa dos direitos humanos que não possa, em alguma medida, ser feita contra o próprio PT.

Não há partido que mais tenha se organizado para constranger, perseguir e atacar a imprensa e os jornalistas que o PT. Daniela Lima, na Folha de S.Paulo, relembra um episódio recente:

“Em 2013, fui cobrir pela Folha o ato de dez anos do PT no governo. Houve tumulto na entrada. Fui checar. Militantes viram meu crachá. Tomei um chute pelas costas e fui chamada de coisas como “cadela do PIG” — termo usado por detratores quando a imprensa era chamada de golpista, e não de esquerdista como agora.”

A prática de agredir jornalistas, atacar as sedes dos veículos de comunicação e desprezar a liberdade de imprensa é uma constante do PT, traduzida formalmente na sua obsessão por controlar a mídia com desculpas “sociais”.

Não é melhor o histórico do PT em termos de convivência pacífica com os adversários políticos. Durante toda a história do partido, o que quer que não fosse do PT nunca teve valor. O PT se recusou a participar da eleição no Colégio Eleitoral que tirou o País da ditadura e nos conduziu à democracia (expulsando seus dois quadros que decidiram votar em Tancredo Neves); que o PT se recusou a assinar a Constituição Nacional de 1988; que o PT se recusou a participar de um governo de coalizão nacional após o impeachment de Fernando Collor; que o PT se recusou a apoiar o Plano Real e todas as conquistas econômicas do país dele advindas.

Nada de bom que já tenha sido produzido no País pode existir se não for conduzido pelo próprio PT.

Que porra de democracia é essa?

Essa incapacidade de conviver com as alternativas em uma democracia se traduziu em práticas violentas como na covarde agressão a Mário Covas em 2000 (o candidato ainda enfrentava um câncer) dias após o líder petista declarar que o PSDB tinha que apanhar “nas urnas e nas ruas”.

Em março de 2015, poucas semanas após Lula discursar ao lado de João Pedro Stédile, do MST, conclamando o líder dos Sem Terra a convocar seus “exércitos” à rua, o chefe petista conseguiu o que queria: o MST foi às ruas com seu exército em grandes e hipócritas manifestações contra a Lava Jato. Com os exércitos na rua, sem respeito à lei, o MST paralisou estradas e, em uma delas, sem o devido acompanhamento das forças legais quando uma manifestação é autorizada, uma família de três pessoas morreu carbonizada em um acidente em um dos pontos da manifestação dos Sem Terra no Sergipe.

A lista de práticas violentas da militância petista é longa, mas vale citar só mais um episódio: em 5 de abril de 2018, um homem que gritou impropérios contra o PT em frente ao Instituto Lula foi agredido a socos e pontapés por dois militantes do PT. O homem sofreu traumatismo craniano.

Será que o leitor conseguirá encontrar textões dos intelectuais petistas condenando veementemente essas práticas de violência política? Não vai.

Vai encontrar no máximo alguns acenos, com expressões como “os erros do PT”. Objetivamente: é muito – MUITO – mais do que erro.

Do mesmo modo como o PT e seus intelectuais jamais fizeram autocrítica alguma, tampouco foram capazes de mostrar que faziam alguma distinção entre os diversos adversários — que sempre trataram como inimigos.

O eleitor moral de Haddad hoje pede votos em sua candidatura para combater o “fascismo” de Bolsonaro, mas tratou como “fascista” Alckmin, Serra, Marina e Aécio. O que não for o PT é fascista. Que superioridade moral pode vir disso?

O PT foi aliado político de todas a ditaduras de esquerda para alimentar campanhas e governos em Cuba, Venezuela, Nicarágua e ditaduras africanas.

Que moral tem o eleitor petista para falar em ditadura e tortura quando, entra ano e sai ano, o seu partido continua defendendo com unhas e dentes a ditadura bolivariana da Venezuela, uma das maiores tragédias humanitárias em escala global, hoje?

Que moral superior pode ter um eleitor que cegamente deposita sua confiança em um partido que, no governo, conseguiu a façanha de apoiar o regime linha dura antissemita, homofóbico e racista de Ahmadinejad no Irã, com suas práticas de execuções de homossexuais enforcados em guindastes e exibidos em locais públicas?

PT foi contra o Plano Real. Bolsonaro também. O PT foi contra a reforma trabalhista. Bolsonaro também. Entre 1999 e 2010, PT e Bolsonaro votaram sempre juntos.

Eu até estaria a início, como disse, inclinado a cometer novos erros. Mas pelo que vejo, o Bolsonaro não é um novo erro. Ele é o mesmo erro.

É o mesmo populismo anti democrático dos últimos 16 anos.

Ele não é o contrário do PT. É o PT ao contrário.

E eu sei. Meu “isencionismo” não vem com nenhuma crença de que ele me coloque numa situação moral acima de nenhum outro eleitor.

Não tenho nenhum orgulho de rasgar meu voto, ainda que teórico, para defender a democracia – esta que depende justamente do nosso voto.

Só acho que nem eu nem vocês somos diferentes nessa.

Não há qualquer moralismo nessas eleições.

Até a próxima.

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