País do ze ninguem

Saí do Brasil há não muito tempo. Faço parte de uma leva de muitos outros brasileiros que deixaram o país recentemente em busca de uma nova vida. 

Antes de qualquer coisa, queria dizer que não considero lugar nenhum no mundo perfeito. E mesmo com todos os problemas do Brasil, guardo muito orgulho de meu país, o que não me impede de reconhecer seus problemas e admirar e aprender com outras sociedades.

Decidi escrever agora, ainda com pouco tempo dessa vida de outsider enquanto as impressões são frescas e as diferenças culturais ainda me marcam – antes que a cultura local se enraíze a um ponto em que tudo me pareça totalmente normal. Este texto, aliás, é baseado em artigo de Daniel Duclos, é bom dizer.

Uma das coisas que mais me chamam atenção aqui na Europa é a força que têm os valores de liberdade e igualdade. 

Um porteiro na Holanda, por exemplo, não se sente inferior a um gerente. Todos trabalham, levam suas vidas e uma profissão é tão digna quanto outra. Fora do expediente, nada impede de sentarem-se todos no mesmo bar e tomarem suas Heinekens juntos. 

Ninguém olha pra baixo e ninguém olha por cima. A profissão não define o valor da pessoa – trabalho honesto e duro é trabalho honesto e duro, seja cavando fossas na rua, seja digitando numa planilha em um escritório com ar condicionado. 

O brasileiro se assusta com o atendimento de um garçom em Paris. Diferente do Brasil, ele não está ali disposto a se rebaixar para que o cliente passe por cima. Ele está trabalhando e sabe exatamente o que deve fazer. Cliente não é deus. Algo muitas vezes difícil de entender para quem vem do país onde existem os “doutores” e os “zé ninguéns”.

Aqui na Europa, todos parecem entender seu papel: um precisa do outro e todos dependem de cada um. Claro que profissões mais especializadas pagam mais. Não é a desigualdade de renda, a questão não é essa. A questão é que você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém.

Há uma maior igualdade social. E ganhar mais do que alguém não torna o outro teu subalterno. Aliás, ordens podem ser até mal vistas. A sociedade funciona como se todos ali fossem parte de um time. 

Entre brasileiros que vêm morar é comum – há exceções – estranharem serem olhados no nível dos olhos por todos – chefe não te olha de cima, o garçom não te olha de baixo. Quando dão ordens ou ignoram socialmente quem tem profissão menos especializada do que a sua, ficam confusos ao encontrar de volta hostilidade em vez de subserviência. Ficam ainda mais confusos quando não recebem ordens de seu chefe.

No Brasil, os salários pagos para profissões especializadas conseguem tranquilamente contratar ao menos uma faxineira diarista, quando não uma empregada full time. Já na Europa, isto é um luxo. Para espanto de alguns, é preciso limpar o próprio banheiro sem ajuda.

E mesmo quando possível pagar a um ajudante, ele não ficará o dia todo limpando cada poeirinha, servindo cafezinho. Eles vão, fazem o que tem que fazer, dão uma ajeitada e vão cuidar de suas vidas fora do trabalho. E serão remunerados de acordo.

O curioso é que aqueles brasileiros que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar qualquer relação entre as duas coisas.

Só que há uma relação direta entre a classe média europeia limpar seu próprio banheiro e poder abrir um Mac Book de 1.400 euros no ônibus sem medo. 

Eu, pessoalmente, acho excelente os dois efeitos. Porque ninguém se sente melhor por ter mais, ninguém se sente pior por ter menos. E no fim, todos se respeitam. Quem seu pai é ou foi não quer dizer nada sobre quem você é. E nada, meu amigo, nada te dá o direito de ser um cuzão. Um doutor que é arrogante e desonesto tem menos valor do que qualquer garçom que trata direito as pessoas e não trapaceia ninguém. Profissão não tem relação com valor pessoal.

Não gosto mais do que qualquer um de limpar banheiro. Ninguém gosta – nem as faxineiras no Brasil, obviamente. Também não gosto de ir ao médico fazer exames. Mas faz parte da vida, é o preço que pago pela minha saúde.

“Limpar o banheiro” é um preço a pagar pela saúde social.

Um preço bem baixo, diga-se de passagem.

A todos um grande abraço!

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* exceções estão sempre presentes. As generalizações são por definição burras. Mas é a da regra destas diferentes regiões que este texto aborda.
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